Por Pedro Schiavon

O Antônio Prata, que é craque tanto no jornalismo quanto na botecologia, diz que é uma coisa “meio intelectual meio de esquerda” esse negócio de gostar de botecos “meio ruins”. E que os “meio intelectuais meio de esquerda” só gostam destes botecos até eles saírem na revista, ficarem conhecidos e virarem cult.

Mesmo não me considerando nem “meio intelectual” nem “meio de esquerda”, sou obrigado a concordar que na maioria dos casos é exatamente isso que ocorre, mas há exceções. E uma delas é A Juriti.

A Juriti é um botecão antigo, demasiadamente antigo, com balcão de alumínio, tabela de preços nas paredes de azulejos, mesas de fórmica e cadeiras de plástico, o que lhe confere a tal impressão de um bar “meio ruim”. Ele foi aberto em 1957 exatamente assim e, ao que tudo indica, não tem a menor intenção de mudar.

Como o bar já passou pelas citadas etapas de cair nas graças dos tais frequentadores, aparecer em revistas, tornar-se conhecido e virar cult, a impressão que passa é de que a intenção da não-reforma é justamente a de espantar os curiosos, mantendo exatamente a intimidade e as demais características que o fizeram ser acolhido pela vizinhança, que retribui com uma fidelidade quase canina.

Uma das razões de tanto amor são os 32 tipos de tira-gostos, bons, simples e baratos, que se espalham pelo balcão e que renderam à casa o título de “rainha dos aperitivos”. Entre as tentações, ótimas batatinhas à vinagrete, daquelas que costumam fazer a alegria dos que aguardam pelo churrasco; sardinhas escabeche cobertas de cebola e molho de tomate; rãs à milanesa, raridade nos botecos; além da já famosa “Joana D’Arc”, uma linguiça calabresa grelhada na labareda do álcool, homenagem meio sádica à mártir francesa.

Outra razão é, claro, a parte líquida, na qual a casa oferece tanto chopp quanto cerveja geladíssima, além das tão desaparecidas batidas, outrora facilmente encontradas em qualquer boteco. É uma tradição da casa e o público não só respeita como reverencia, elegendo como campeã dos pedidos a batida de amendoim com licor de cacau.

Quem atende a esse povo todo é o esforçado Bigode, único garçom (se é que dá para chamar assim) do bar, sabe-se lá desde quando. Ele acomoda o pessoal que, se não chega a transbordar a casa, também não deixa sobrar cadeiras, mas que prefere mesmo é beber em pé ao lado do balcão, que sequer tem bancos, ou na calçada.

E se você acha que alguém se incomoda com isso, engana-se. Pelo contrário, essa bagunça e simplicidade toda dá até um certo charme ao local que é, “meio bom” ou “meio ruim”, um dos botequins mais autênticos da cidade.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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