Por Pedro Schiavon

Em Portugal, há um antigo bordão que diz: “no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”.

Fui fuçar a história de São Martinho e descobri que ele nunca teve nada a ver com o vinho. O que ocorre é que nas terras lusas os vinhos começam a ser produzidos entre setembro e outubro e o dia de São Martinho – 11 de novembro – fica no período no qual já se deve começar a verificar o resultado da produção.

Como essa história toda parece não ter lá muito sentido e menos sentido ainda teria você esperar até novembro para tomar vinho, vá assim que puder conhecer a Adega Gaúcho, que fica bem no meio da cidade e é um lugar, no mínimo, inesperado.

Posso dizer que, à primeira vista, mesmo se eu passasse diariamente na porta, é provável que eu nunca entrasse. Entrei por recomendação da Elaine e do Creso, que freqüentam a casa há muito tempo e sempre contam maravilhas sobre ela.

Aí descobri que a adega foi criada em 1977 no bairro da Bela Vista pelo Sr. Álvaro Renato e seu cunhado, cuja parte foi comprada pelo então sócio após a sua morte.

Como bom gaúcho, o Sr. Álvaro sempre foi um apreciador de vinhos e um grande conhecedor dos produtos da região. E na sua adega, sempre deu prioridade aos produtos da sua terra.

A Adega Gaúcho nasceu, cresceu e viveu como adega mesmo mas, por insistência da clientela que se amontoava em volta do balcão, em 2001 ela ganhou algumas mesas feitas com os próprios barris de vinho e umas banquetas de madeira. O curioso é que o Sr. Álvaro lembra da data exata por causa do ataque às torres gêmeas!

Frequentada pelos antigos moradores do Bexiga, pelos universitários da região, por senhores engravatados de outros cantos da cidade e pelos grupos mais improváveis (como o pessoal do “Vermes de Jacob”, um motoclube de roqueiros evangélicos!), a casa conquista pela simplicidade – coisa rara em lugares especializados em vinho, que tendem a ser… digamos, um tanto esnobes.

Evitando as marcas importadas e caras, o Sr. Álvaro oferece ali cerca de 30 a 40 vinhos, todos nacionais, de diversos tipos e produtores diferentes.

Mas a estrela mesmo é o vinho da casa, mais barato, porém muito gostoso. Ele é produzido em Caxias do Sul e trazido nos próprios barris, sendo vendido em taças, jarras ou mesmo envasados para viagem. É ele que é largamente consumido por todos, normalmente acompanhado de um queijo, de um salame e de muitas, muitas histórias.

Uma delas quem me conta é o Paulo Pedroso, antigo freqüentador, que relata o dia em que um dos clientes passou por lá no final do trabalho e, cansado, acabou exagerando no vinho e dormiu no balcão. Ao acordar, começou a tirar a roupa enquanto todos observavam atônitos. Quando começou a desabotoar a calça alguém deu um grito e ele se assustou, explicando-se imediatamente: “Pensei que já estava em casa…”

Entre tantas histórias, aproveite tudo com moderação, mas aproveite. Afinal, como nos lembra o escritor Fernando Sabino, “Cristo não consagrou a água, o leite ou a coca-cola. Consagrou o pão e o vinho, como alimentos do corpo e do espírito”.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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