Por Pedro Schiavon

Eu sou do tempo em que os garotos sonhavam em ser como o Menino do Rio e não como o Mark Zuckerberg. Todos queriam ser Juba ou Lula, da Armação Ilimitada, ou o saudoso Pepê, campeão de voo livre, e não um rico banqueiro ou um poderoso político.

A ideia era ter uma casinha na areia e viver a vida sobre as ondas, surfando, voando de asa delta e pilotando por trilhas desconhecidas, bem longe dos shopping centers, da segurança dos condomínios e das parafernálias eletrônicas modernas. O plano era mergulhar no mundo fisicamente e não virtualmente.

Provavelmente por isso, um dos meus lugares mais queridos nesse mundão sempre foi o morro do Voturuá, na divisa entre Santos e São Vicente, de onde se avista grande parte do litoral, além de uma imensidão de céu e mar que parece não ter fim. Um cenário difícil de descrever.

É deste lugar que partem as asas e os paragliders que enchem o céu da cidade e que tornam irresistível a tentação de aprender a voar sozinho ou pelo menos pegar uma caroninha num voo duplo. Ali, curti voar com o Alê, ir ao luau do Baratta com a Marcela, fazer amigos como o Capiau e o Ramon e passar infinitas horas sentado sozinho, curtindo o silêncio e admirando a incansável paisagem.

Mas ainda faltava alguma coisa ali. Tudo bem que a dificuldade do acesso e a total falta de infraestrutura davam um charme a mais ao local e impossibilitava que a rampa ficasse muito cheia de gente, mas ela impedia uma permanência maior e mais confortável, o acesso sem carro e o voo de quem não tivesse uma carona.

A primeira mudança veio em 2002, com a inauguração do teleférico que liga a praia do Itararé ao topo do morro, bem ao lado da rampa. O agradável passeio leva pouco mais de 10 minutos para percorrer 560 metros de distância e subir os 170 de altura, passando bem perto da mata que cobre a encosta do morro.

A segunda, veio com uma grande reforma no topo do morro, que cercou áreas perigosas, aumentou o calçamento, instalou bancos e delimitou a rampa de voo livre para que amigos e turistas não atrapalhem os pilotos.

Por fim, veio, em 2010, a inauguração do “Ao Mirante”, restaurante com jeitão de boteco, especializado em peixes e frutos do mar. Ele preencheu um vazio que ali havia e que era eventualmente preenchido por fracas lanchonetes e barracas que nunca duravam muito tempo. E veio para ficar.

Confesso que nunca provei os pratos, mas a visão deles – muito bonitos e fartos – é tentadora. Por questão de gosto, prefiro ficar nos petiscos, que são muitos. A coisa vai desde as básicas batatas, mandiocas, frangos e bolinhos até as especialidades do mar, como lula, camarão, iscas e caranguejos, passando por porções inesperadas como shimeji e alheiras. Para acompanhar, cervejas, sucos e a bebidas clássicas, além de uma grande e também surpreendente variedade de coquetéis.

A partir daí a opção é sua. Eu vou escolher uma mesa, beliscar alguma coisa, tomar uma caipirinha, ver os paragliders subirem no céu, as asas mergulharem no ar, ver novamente a paisagem e exclamar pela milésima vez: como o mundo é bonito dali de cima!

“No começo, voar dá medo. É estranho ver que é suficiente o desejo de voar. Meu pesado corpo mais-leve-que-o-ar? Como se sustenta? E na hora de descer? E se eu me machucar? E a dor? Percebi que essas inseguranças são incompatíveis com o voo. Não se pode voar pensando nisso. Não pense. Voe.

Voar serenamente, silenciosamente. Ver de longe as pessoas indo pra lá e para cá, observar o fluxo dos carros, conhecer os tetos das casas. Brinquedos esquecidos no fundo de uma piscina. Lá na frente, um parque de diversões com uma roda-gigante. Será possível ir tão alto? Sim, é possível, mas não é necessário. Não é necessário quebrar nenhum recorde de velocidade, altura, tempo. Só voar.

Acordei. Mas a sensação veio comigo: era preciso voar. Era preciso ser livre. E, com a consciência de um ser flutuante, serenar a liberdade. Continuar voando, mesmo de olhos abertos.” (Volponi)

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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