Por Pedro Schiavon

Adoro feijoada. A mistura que nasceu nas senzalas, do feijão preto com arroz branco, das carnes menos nobres do porco, da farofa com couve e o indispensável molho de pimenta se tornou o mais brasileiro dos pratos e, provavelmente, o mais amado e aguardado durante a semana por todos nós.

Adoro as tardes de sábado na Vila Madalena. É nesse horário que o cortejado bairro mais se parece com a vila que sempre foi, com famílias circulando a pé com seus cachorros, vizinhos colocando o assunto em dia e os pequenos comércios recebendo antigos clientes para o almoço.

Adoro também lugares simples e tradicionais, desses com a cara do bairro, que existem há décadas, sempre no mesmo endereço e cuidados pela mesma família, com inabalável despojamento e evidente intimidade com sua clientela, que não se submetem a modismos e não têm pretensões de buscar uma nova freguesia.

Tudo isso, no fundo, costuma ser uma série de desculpas para um único propósito: encontrar os amigos e passar uma tarde agradável, jogando conversa fora, bebericando alguma coisa e se fartando de comer. Propósito que se encaixa, perfeita e harmonicamente, com o Bar do Betinho.

O Bar do Betinho esteve na esquina da Wisard com a Girassol desde 1952 até 2013. Começou como um simples botequim, pertencente a tios-avós de Humberto da Costa, o hoje já famoso Betinho, e nem nome tinha. E seguiu assim durante décadas, até o próprio assumi-lo e, aos poucos, começar a servir almoço para os trabalhadores da região.

A comida fez sucesso e lá pelos anos 80, começo dos 90, ainda sem nome, o local começou a ser conhecido pelo nome do seu proprietário, que acrescentou pratos saborosos e que, a pedido dos clientes, os mantém no cardápio até hoje. São os casos da picanha com arroz, feijão e farofa, do bacalhau à moda da casa e do procuradíssimo filet à parmegiana.

Mas a campeã dos pedidos é mesmo a feijoada, feita com esmero e servida em cumbuca de barro, com opções fartas para uma ou duas pessoas. Acompanhada de arroz, bisteca, couve, torresmo, farofa, laranja e molho, ela pode ser servida com ou sem pé e língua, conforme o gosto do freguês. E chega à mesa com caldo grosso e fumegante, com um cheiro e, claro, gosto simplesmente irresistíveis.

Betinho cuida pessoalmente da cozinha e não deixa que ninguém interfira em seu trabalho. É ele quem controla cada passo de seus ajudantes, escolhendo produtos, ajustando receitas e zelando pela qualidade de cada prato.

O restante da casa fica a cargo da família. Humberto Costa, pai do homônimo Betinho, é quem toca o balcão do bar com o mesmo ciúme que o filho tem da cozinha. É ele quem prepara os drinques da casa, fazendo pessoalmente cada caipirinha ou coquetel, impedindo qualquer interferência de parentes ou funcionários.

Ricardo Pagano da Costa, o filho, é o homem de frente da casa. É ele quem cuida de toda a parte que envolve o atendimento direto aos fregueses, a fornecedores e a quem mais aparecer. Ele é formado em gastronomia, mas evita entrar na cozinha para não contrariar o pai, limitando-se a aconselhá-lo na criação e elaboração de alguns pratos.

E como tudo isso serve mesmo como ótimos motivos para reunir os amigos, Betinho aproveita ainda seu grande hobby – o ciclismo – para reunir a turma. É ele quem organiza os passeios ciclísticos que saem duas ou três vezes por semana, normalmente à noite, da Vila Madalena.

Essa “onda” – que descobri através do Carlos e da Débora – começou há alguns anos e não parou mais. A turma se encontra na própria Wisard, mas a alguns quarteirões do bar, já que este costuma estar fechado na hora do passeio, e circula por toda a cidade sempre que possível.

E mesmo com tudo isso, veio a novidade: depois de 60 anos no mesmo endereço, o Bar do Betinho se mudou. Mas só para o outro lado da rua, para uma casa um pouquinho mais espaçosa e confortável. Perdeu um pouco do charme, mas ainda é o lugarzinho especial que sempre foi.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

Endereço & Contato

Endereço:

Rua Wisard 264

GPS:

-23.555226, -46.689690

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E-mail:

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