Por Pedro Schiavon

Nada é tão divertido quanto buscar o inesperado. Quer dizer, a gente não busca, mas dá chances para que ele apareça quando saímos por aí observando o mundo, sem grandes pretensões, procurando apenas por um dia diferente, sem planos, buscando surpresas.

Foi assim que nos deparamos com o Joinha, o mais inesperado e surpreendente botequim onde aportamos nos últimos tempos.

Mas antes de começarmos, é bom esclarecer uma coisa: o bar original, do qual muito falamos aqui, foi totalmente destruído por um incêndio em 2016, com direito a todo tipo de drama e tristeza de todos. Mas, após muita luta, ele reabriu em 2018, com nova cara e a mesma qualidade, para a felicidade geral da nação. Então vamos lá.

Para começar, nem nome o bar tem. Alguns o chamam de Bar do Leonel e outros de Bar do Joinha – ambos, referências ao nome do peculiar, único e inigualável Wilson Leonel, o “Joinha”, dono do estabelecimento e, para muitos, sua maior atração.

Ele era apenas um rapaz sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior quando desembarcou em São Paulo no começo dos anos 60 para estudar engenharia química. Por sorte, logo percebeu que sua química, na verdade, tinha muito mais a ver com as mesas dos bares do que com as da faculdade.

Cravou então, em 1964, seu botequim no coração do Tatuapé, bem no meio do hoje reluzente Jardim Anália Franco. Ali instalou uma casinha modesta com mesinhas tão simples quanto e encheu suas prateleiras com cachaças, muitas cachaças.

Deste jeito, Wilson tocou seu bar sem a ajuda de nenhum funcionário, com os quais simplesmente não consegue conviver. A exceção é seu próprio irmão Walter, simpático topógrafo, ajudante e – sometimes – cantor!

Também deste jeito ele conquistou uma clientela que diariamente o abraça, beija, pede pressa e reclama, mas não o abandona em hipótese alguma.

E foi, ainda, assim, por repetir invariavelmente a mesma resposta para qualquer tipo de pergunta sobre qualquer assunto, que ele ganhou seu apelido: Joinha!

A primeira impressão de quem passa pela rua era a de um boteco bem humilde, com ares das antigas vendinhas do interior, com produtos diversos pendurados por todos os lados e garrafas de cachaça espalhadas pelas prateleiras.

A segunda impressão – a de quem resolve entrar e conferir de perto – é praticamente a mesma, mas com uma diferença: observando melhor os detalhes e os produtos expostos, ao invés das velhas mercearias a lembrança nos remete às grandes bancas do Mercadão. E é aí que a coisa começa a mudar.

A atenção se perde facilmente entre centenas de garrafas (são cerca de 700 cachaças e todos os outros tipos de bebidas), além de alguns enfeites exóticos como um relógio que anda para trás e outro no qual é sempre 6 horas, uma infinidade de comidinhas e um suave, ininterrupto e improbabilíssimo som de dixieland jazz fazendo o fundo musical.

São azeitonas, cebolinhas, aspargos, atuns e ovos de codorna; embutidos como presunto, copa, lombo, mortadela, salsichinha, salsichão, presunto cru, morcela, chouriço, pastrami, jamón e salame; queijos como parmesão, gruyere, gouda, camembert, provolone, estepe, coalho, roquefort, brie e gorgonzola.

Não à toa, Joinha serve – sem dúvida – algumas das melhores tábuas de frios da cidade. Primeiro, porque ele cuida do assunto pessoalmente, indo buscar os melhores produtos no próprio Mercadão. Segundo, porque você pode escolher como e com o que quer a porção. E terceiro, porque normalmente ele mesmo se encarrega desta missão, escolhendo os produtos e o tamanho das tábuas de sua própria cabeça conforme a cara e o bolso do freguês.

Funciona mais ou menos assim: como não há cardápio, a única comida pré-estabelecida é o pastel. De resto, chama-se o Joinha e pede-se algo do tipo “uma tábua que tenha um roquefort e qualquer outro queijo, umas salsichas ou copa, um pouco de cereja, melão e mais algumas coisinhas, que dê para uns 3 ou 4 e que custe uns 40, 50 reais”. Dá certo, acredite, principalmente pelos critérios dele.

Para acompanhar, além do mar de cachaças, a maioria das cervejas nacionais e uma ou outra importadas se fazem presentes. De resto, o trivial: refrigerantes, caipirinhas e afins.

Depois que já se está dentro do bar de Wilson Leonel, não é preciso buscar mais nada. O inesperado já foi encontrado. As cachaças, os petiscos e até os novos amigos estão todos lá.

Então, o negócio é ficar por ali e curtir o dia – com o tempo parado ou andando para trás. Tudo calmo, divertido, despreocupante e gostoso. Tudo joinha.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

 

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