Por Pedro Schiavon

Quando eu ouvia falar do Bracarense, no Rio, mas ainda não o conhecia, uma coisa não entrava na minha cabeça: como é que numa cidade que pode ser considerada a capital mundial dos botecos, um bar tão pequeno e simples pode conquistar uma legião de adoradores que se aglomeram diariamente à sua porta, sentados em banquinhos, em suas próprias cadeiras de praia ou em pé, em uma busca apaixonada por seu chopp e seus petiscos?

A resposta que só eu não conhecia é: tudo ali é muito pessoal e informal, atencioso, com bons preços, deliciosos petiscos e tudo de primeiríssima qualidade.

Não sei se a referência é a ideal, mas foi a que me veio à memória (com cheiros e gostos) quando comecei a pensar sobre o Bar do Luiz Fernandes, a simpática casa da Zona Norte, desconhecida pela maioria dos paulistanos, mas simplesmente idolatrada por seus frequentadores.

O bar surgiu em 1970, da falência da mercearia da família e da perspicácia do Sr. Luiz, que viu ali uma oportunidade e transformou a mercearia em um boteco.

E criou “o” Boteco. Não desses sem personalidade e que imitam os botequins de antigamente, e sim daqueles com banquetas de plástico, mesas de lata, garçons simpáticos, cerveja sempre geladíssima, petiscos gostosos e muita, muita história para contar.

Comandado pelo próprio Sr. Luiz Fernandes, o bar se chamava, até 2003, Bar do Luiz, quando resolveu acrescentar o sobrenome para não ser confundido com o mais que centenário carioca Bar Luiz. Ao lado dele, Dona Idalina, sua fiel escudeira, é ainda a responsável pela cozinha. À frente, transbordando simpatia e recebendo cada cliente como se fosse um amigo de infância, o filho Luiz Eduardo.

Tudo isso numa casinha pequena que foi se espalhando pela simpática rua. E os garçons seguem se esforçando para fazer caber todo mundo, como num coração de mãe. E “salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão”.

E batidas. O bar faz dezenove diferentes. Dizem que as preferidas são a de amendoim com licor de cacau e a de morango com vinho, patrimônios do boteco, feitas pessoalmente pelo Sr. Luiz e exibidas pelas prateleiras acondicionadas em garrafas antigas de leite Paulista.

E caipirinhas! Elas também são preparadas pelo anfitrião em opções como a “Verde e Amarela” (limão e maracujá), a “Velha Guarda” (de limão galego), a “Clássica” (de limão Taiti e lima da Pérsia) e outras como morango, carambola, uva, ameixa, goiaba etc.

Chegamos então ao balcão. Verdadeira instituição botequeira que é, a casa não poderia deixar de ter um balcão de acepipes, separados pela casa entre os “frios” (salames, queijos, chouriços etc), os “leves” (pepinos, batatinhas, tomates, cogumelos e outros) e os “de peso” (moela, pé de porco, fígados de frango e de boi), curiosamente vendidos por porção ou por unidade, e não por peso.

Só que tudo isso são apenas detalhes, pois o ponto alto da casa é o chamado “petisco de boteco”: bolinhos, pastéis e afins – aquilo que por aí é conhecido como “baixa gastronomia”, mas que aqui pode até ser chamada de “alta gastronomia dentro de um bolinho”.

Um dos exemplos é a “Surpresa de Dona Idalina”, campeão do Boteco Bohemia 2006. Trata-se de um bolinho que leva berinjela, carne moída, mussarela, tomate seco e diversos outros ingredientes.

Em 2008, o bar ficou com o segundo lugar no mesmo concurso com o “Delícia Portuguesa”, um bolinho de bacalhau servido de maneira primorosa, cortado ao meio, em uma forminha de cerâmica para ser molhado no azeite e no alho frito com pimenta rosa.

O concurso não existe mais, mas o bar não parou de criar opções. Uma delas é o “Bolinho Maravilha”, preparado com berinjela, lingüiça Blumenau, mussarela e pepino em conserva, sempre servido na companhia da mostarda escura holandesa.

Outra delícia é o “Quarentinha”, homenagem aos 40 anos do bar, que leva massa de batata, mussarela ralada, tomate seco, manjericão, miolo de alcachofra e aliche!

E quando você pensa que já é mais que suficiente, o Luiz Eduardo começa a descrever detalhadamente o “Brasileirinho”, feito com massa de mandioquinha e com um recheio que mistura o feijão e as carnes da feijoada com muitos temperos, e que ainda não está no cardápio, mas já é servido pela casa.

Tudo isso e mais algumas coisas que já devo estar esquecendo dão à sua legião de “fiéis” uma certeza: o Bar do Luiz Fernandes é muito mais que um dos melhores botecos de São Paulo. É uma extensão de suas casas, só que com um barman melhor, uma cozinheira melhor e uma turma de amigos que nunca vai te deixar sozinho.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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Rua Augusto Tolle, 610

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