Por Pedro Schiavon

Vamos falar sobre uma trabalhadora muito especial: a chopeira mais antiga de São Paulo, ainda em atividade. Ela não fica em nenhum dos bares considerados “clássicos” da cidade nem escondida em algum boteco do centro sendo cultuada em alguma espécie de “balcão-altar”.

Ao contrário. Ela fica em um bar descontraído e receptivo no Campo Belo, sem qualquer ornamento ou destaque, dividindo espaço com duas réplicas e trabalhando diariamente, de lua a lua, desde 1958. E tem muita história pra contar…

A história da casa – e sua vocação – vem da década de 20, quando um ex-gerente da Brahma comprou o imóvel e montou uma vendinha para ganhar seu sustento e poder beber em paz com os amigos.

Após décadas de despojamento, a venda foi adquirida, em 58, pelos irmãos portugueses Manoel e José Souza Dias. Eles a transformaram em um bar, batizando a casa com o nome atual e instalando atrás de seu balcão a valente chopeira, adquirida do clássico Joan Sehn.

Já nesta época o bar ganhou fama pelo excelente chopp, que até hoje é cuidadosa e lentamente tirado de uma única torneira e servido em uma tulipa de vidro bem fininho. Fato que obrigou os proprietários a adquirirem duas réplicas de sua relíquia, feitas sob encomenda.

Como a chopeira não é automática, o chopp ainda passa por um processo artesanal para ser servido. O que explica sua surpreendente leveza.

A casa ficou conhecida também por algumas excentricidades, como o fato de não ter telefone e pela presença de uma grande mesa redonda à qual só podiam se sentar os clientes mais assíduos que, em sua grande maioria, sempre foram os moradores do bairro.

Só que, como aparentemente os homens costumam viver menos do que chopeiras, os dois irmãos vieram a falecer, um no final do século passado e outro no início deste. Com isso, o bar entrou em decadência e o bairro em grande aflição.

O Dois Irmãos dá a impressão de ser precisamente um “ponto de encontro”, onde os amigos do bairro combinaram há anos atrás de se encontrar todos os dias após o trabalho. A coisa toda é tão natural que os próprios frequentadores parecem não se dar conta disso. É automático. Mas por que não seria assim?

Por isso, com seu declínio e com o receio de que o bar fechasse suas portas definitivamente, quatro ex-clientes (hoje são só dois: o Chicão e o Boy, como são conhecidos) assumiram o estabelecimento e promoveram algumas reformas que se faziam necessárias.

Nessa reforma, a casa foi bem ampliada. A grande mesa foi substituída por outras menores, também redondas e de tamanhos diversos, como é o costume do bar.

A casa ganhou também um grande ambiente totalmente ao ar livre, fechado para a rua, como um grande quintal de casa, que talvez seja o único ambiente interno na cidade onde é permitido fumar.

E ganhou ainda algumas novidades no cardápio, como a porção de pernil e ótimos sanduíches de frios feitos com qualidade e sem frescuras.

Mas manteve detalhes fundamentais, como seu piso hidráulico original, sua aparência autenticamente antiga, seu jeitão meio chique / meio boteco de bairro e seu eterno clima de confraternização entre amigos.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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-23.613124, -46.677589

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