Por Pedro Schiavon

O paulistano é um sujeito muito mal acostumado. Ele estuda nas melhores universidades, veste roupas das melhores grifes europeias, anda de carro importado e, principalmente, come pratos elaborados pelos mais cultuados chefs de cozinha do país.

E quando o assunto se refere aos queijos, pastas, vinhos, cervejas e petiscos que abastecem sua geladeira e despensa, o nível de exigência passa dos limites. Para sobreviver nesse ramo de comércio é preciso ser bom, muito bom. Para ser referência no assunto durante 13 décadas é preciso mais que isso. É preciso ser excelente.

Corria o ano de 1888. Jack Estripador apavorava a Inglaterra enquanto no Brasil as notícias boas se sucediam. No Rio, a princesa Isabel assinava a Lei que punha fim à maior vergonha de nossa história. Perto dali (será que para comemorar?), o suíço Joseph Villiger criava a Brahma. Em São Paulo, iniciava-se a construção do Viaduto do Chá. A poucos metros dele, o português José Maria Godinho inaugurava, com seu nome, a melhor casa de secos e molhados da cidade.

A Casa Godinho foi fundada na Praça da Sé – coração de uma cidade emergente que contava então com 50 mil habitantes – com o intuito de atender um público já carente de produtos de qualidade, e lá permaneceu até 1924, quando, com a inauguração do primeiro arranha-céu da cidade – o edifício Sampaio Moreira – mudou-se para lá, onde permanece, firme, forte e lotada, até hoje.

Os donos, é claro, mudaram um pouco. De José Maria, a casa passou aos portugueses Luís Gonçalves da Costa e Casemiro Soares Leite, que mantiveram as características originais e a selecionada clientela, da qual sempre fizeram parte os principais nomes da sociedade paulistana, como o governador Adhemar de Barros, o presidente Jânio Quadros, o empresário José Ermírio de Moraes e o magnata da imprensa Assis Chateaubriand.

Deste último, o jornalista Fernando Morais conta um calote histórico em seu livro “Chatô, o rei do Brasil”. Diz ele que o escritor Rubem Braga foi escalado por Chateaubriand para fazer uma série de reportagens sobre um condomínio pertencente ao dono da Casa Godinho na época. O que o velho Braga não sabia é que tais reportagens eram a paga de uma aventura na qual o empresário encostou um caminhão do jornal na porta da loja, mandou encher de caixas de champagne e entregar na casa de uma mulher. E não pagou.

O problema foi que, mesmo com a casa mantendo-se fiel a seus princípios de qualidade, a cidade mudou, e o outrora luxuoso centro paulistano entrou em declínio, tornando-se degradado e espantou sua clientela para novos bairros emergentes.

Os produtos importados passaram a ser procurados longe dali e a loja passou a precisar de mais fôlego e investimentos. Foi assim que, pouco depois do centenário da casa, Miguel Romano tornou-se sócio.

Romano é engenheiro químico e cresceu dentro da casa lotérica de seu pai, Giuseppe, que ficava a poucos metros da Godinho. Depois de adulto chegou a arriscar-se em alguns projetos na área da gastronomia, mas seu sonho sempre apontava para aquele empório.

A sociedade, que incluía então 4 pessoas, começou a ruir com a crise que só fazia crescer, até que em 2000 restavam apenas Miguel e Casemiro. A proximidade da falência era tamanha que Miguel quis vender sua parte, mas Casemiro ofereceu um valor tão baixo que ele devolveu a proposta, oferecendo o mesmo valor pela parte do sócio. Casemiro aceitou.

Único dono então de todas as maravilhas da loja, mas também de todos os problemas que a cercavam naquele momento, Miguel Romano sabia que era preciso inovar. Mas como mudar uma casa que mantém o mesmo piso e as mesmas prateleiras e balcões de imbuia intactos há mais de um século, e cujo maior apelo é justamente sua tradição?

Foi então que ele montou ali dentro, em 2001, uma pequena rotisseria, com um balcão de vidro cuidadosamente elaborado para não contrastar com os ares clássicos da loja. Nessa estilosa vitrine surgiram, de uma hora para outra, pães diversos, doces e, principalmente, as melhores empadinhas de São Paulo.

A empada da Godinho é difícil de descrever, mas vou tentar. Ela é feita com a verdadeira massa podre, daquelas que desmancham na boca, e não no colo da gente. O recheio de várias delas inclui molho bechamel, o que o mantém mole e cremoso. As mais pedidas, até para seguir a tradição da casa, são as de bacalhau, mas tem de camarão, de frango, de palmito, de lingüiça Blumenau e até de alheira portuguesa. Nova sensação da casa, ela é responsável direta pela agitação que toma a casa na hora do almoço e nos finais de tarde.

Hoje a Casa Godinho revive seus melhores dias, mas como em time que está ganhando também se mexe e se aprimora, Miguel Romano presenteou a cidade com mais algumas novidades.

Primeiro, para proporcionar aos clientes mais uma viagem no tempo, instalou na loja um antigo relógio de estação e um vitral feito pelo jovem vitralista Fábio Fonseca, responsável pela restauração dos vitrais do Colégio de São Bento. Uma ótima combinação para um prédio que acaba de ser tombado e cujo próximo morador, além apenas da Godinho, será a Secretaria Municipal de Cultura.

Depois, inaugurou a banca Godinho dentro do Mercado Municipal, levando suas maravilhas a um público cada vez maior e mais exigente. Porém, a banca do Mercado oferece apenas a parte de rotisserie. É na velha loja da Líbero Badaró que você encontrará as grandes e tradicionais atrações da casa.

Se você tem uma família grande, aproveite para fazer uma pesquisa entre todas as gerações. Pergunte à sua irmã, ao seu pai, à sua avó, bisavô e tataravô, qual o melhor lugar da cidade para encontrar um mar de frutas secas, conservas de todos os tipos, alheiras, queijos inimagináveis, embutidos pra lá de diferenciados (como o presunto Pata Negra, que custa 400 reais o quilo), torta seca de amêndoas e tâmaras, compota mineira de manga, extrato de raiz forte e, principalmente, o legítimo bacalhau norueguês Cód Gadus Morhua, (cujas vendas são de aproximadamente 12 toneladas por ano). É provável que todos respondam a mesma coisa: na Casa Godinho.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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