Por Pedro Schiavon

Você pega a estradinha de asfalto em direção às cachoeiras por mais ou menos 1km, passa a ponte e vira à esquerda na estrada de terra. Aí segue contornando a cerca de cedro e vai em frente. Sobe, desce, vira para um lado, depois para outro e sai no asfalto de novo. Aí sobe, sobe, sobe e volta para a terra. Vira de novo, depois mais uma e sobe. Mais asfalto e mais terra. Quando você chega lá no alto, além da paisagem espetacular, você avista uma casa avermelhada. É lá.

Por que é que eu continuo fazendo esse caminho todo tantas e tantas vezes? Pelo bar, pela paisagem, pela caipirinha, pela coalhada seca, pelo bilhar, pelo passeio e pelo Gutto.

Gutto Ferreira é um cara querido por todo mundo. Já foi jogador de vôlei, modelo, peão de boiadeiro e dançarino pelo mundo inteiro.

Dessas andanças, herdou a paixão pela liberdade, pela natureza e pelos animais. Tanto que em meados dos 90, contrariando a lógica de quase todos, trocou tudo isso para adquirir umas terras pra lá de escondidas, a 25 km de Cunha, que já não fica perto de muita coisa.

Em um resumo rápido, criou animais e cultivou alimentos nessa terra, arrendou outra ao lado, transformou-a em pousada e deixou-a por outra, mais próxima, onde pôde finalmente instalar seu projeto do que viria a ser, em 2006, o Celeiro.

O Celeiro é uma casa ampla e envidraçada no alto de uma montanha que fica entre dezenas de outras montanhas. Abriga um bar/restaurante embaixo, a casa do Gutto em cima e, de uns tempos para cá, três chalés para hóspedes.

Seus vizinhos mais próximos são alguns sítios a cerca de 1 km dali. Os únicos sons que se ouve são alguns relinchares dos cavalos, mugidos da vizinhança, esporádicos latidos do Nando e as músicas que o Gutto põe pra rolar, no volume que bem entender.

Dentro da casa, algumas mesas, sofás, o balcão do bar e uma mesa de bilhar. Do lado de fora, mais sofás e muitas redes. Na decoração, só peças de muito bom gosto, com destaque para os quadros de dona Agair e as esculturas do Luciano, um dos melhores artistas da cidade.

De dentro da cozinha saem picanha, salmão, macarrão etc, mas a especialidade é o arroz de comitiva, aprendido nas longas tocadas de boiadas e amplamente aperfeiçoado com o acréscimo de vários ingredientes, o que o torna uma espécie de paella caipira.

Confesso que costumo ficar nos petiscos como o frango (caipira, é claro) à passarinho e na incrível coalhada seca que, sei lá por quê, é a melhor que conheço. E tudo servido com um capricho decorativo que impressiona.

O mesmo acontece com a caipirinha de limão cravo com manjericão. Pode ser o açúcar na medida certa, as folhas do manjericão ou até o gelo, mas eu acho que o segredo está no tipo do limão que nasce lá (o Gutto diz que está no jeito de chacoalhar o copo!). O fato é que ela é irresistível.

O termo slow food usado no site explica pouco. É só um toque para você apreciar a comida sem pressa. Mas, mais que isso, é um jeito sutil de avisar que você não vai sair de lá tão cedo, porque aos poucos a casa vai ficando mais cheia e animada.

É ainda um conselho para você tirar o pé do acelerador. Afinal, está com pressa de quê? Escolha uma rede e espere pelo pôr-do-sol. O hoje, ali, deve ser saboreado com toda a tranquilidade e complacência possíveis.

Uma coisa bacana é que ali você acaba fazendo de tudo um pouco e ao mesmo tempo. Como a maioria dos clientes são amigos e o clima da casa deixa todo mundo à vontade, as turmas se misturam naturalmente e cada hora você está num lugar.

Assim, primeiro você se senta em uma mesa qualquer com seu grupo de amigos. Depois alguém te chama para mostrar alguma coisa nos livros no canto dos sofás. Em seguida você vai até o balcão pedir outra caipirinha e fica “de prosa” com o Gutto. O papo é interrompido para jogar bilhar com alguém que você acabou de conhecer. E por aí vai…

E há ainda uma proposta indecentemente convidativa que é feita a todos uma vez por mês: uma cavalgada na lua cheia, que sai do Celeiro no finzinho da tarde rumo às montanhas, vê a lua nascendo, visita algumas cachoeiras sob o claríssimo céu de Cunha e volta para o jantar.

O Celeiro é, portanto, um lugar aonde você vai e fica. Um lugar de boa comida, boa bebida, boa diversão e muito sossego. Um lugar para encontrar e fazer amigos.

Lembra daquela estradinha do começo da história? Ela pode parecer longa, mas em Cunha tudo é questão de uns 10 minutos. E ela sempre parece mais triste e curta na hora de ir embora.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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