Por Karina Del Monte Schiavon

Uma pequena varanda na entrada e, ao respirar, aquela mistura gostosa de cheirinho de bolo saindo do forno e café passando pelo coador.

Parece cena de um sábado ao cair da tarde, em mais uma visita à casa da vovó Josephina, mas na verdade era uma terça-feira e quem nos esperava era Laura Estima, a criativa chef do encantador Doce de Laura, na Vila Madalena. Em uma mesa larga ela finalizava a montagem de duas tortas que haviam sido encomendadas, na parte da loja em que os clientes não podem ter acesso, mas conseguem ver o que acontece atrás das portas vai-e-vem.

Próximo ao balcão, este, sim, acessível e tentador, uma moça aguardava a fatia de bolo de limão, e um rapaz tentava decidir se comeria a quiche de queijo ou de alho poró, uma no suporte cor-de-laranja e outra, no verde. Lindas! Deu para entender o porquê da dúvida, e desejar que todas as hesitações da vida se originassem de coisas assim.

Engenharia – mas para fazer doces

Durante um período de crises econômicas, Laura quis iniciar um negócio e já havia optado pelos doces, pois não se identificava com a culinária quente. Além disso, sua mãe produzia salgados fantásticos – a coxinha com requeijão era um sucesso em Porto Alegre – e como não queria competir com a mãe, começou a fazer torta de sorvetes. Para sorte do paulistano, pouco tempo depois, decidiu vir para São Paulo para oferecer sua produção a hotéis e restaurantes.

Em 1993, uma casa no bairro da Pompeia passou a acolher utensílios de cozinha, ingredientes e Laura, essa gaúcha que há anos havia descoberto a habilidade para trabalhos manuais e que chegou a cursar Engenharia Civil, de onde herdou a capacidade de planejamento, e Hotelaria, ramo em que nunca atuou profissionalmente, mas com o qual formou sólida parceria no fornecimento de sobremesas.

Três anos depois, precisou que o proprietário do imóvel fizesse alguns reparos antes de renovar o aluguel, e não tendo conseguido um acordo, Laura precisou encontrar outro local. Em 1996, circulando pela Vila Madalena, bairro que naquela época era bem diferente do que é hoje, quando dezenas de prédios estão sendo construídos compulsivamente, a doceira encontrou aquela pequena casa com varanda cujo valor estava a contento.

Ao falar sobre os primeiros anos naquele trecho da Rua Aspicuelta, Laura se recorda que sentia medo de encerrar tarde o expediente, já que o movimento era pequeno ao cair do dia, e do silêncio que muitos de nós temos dificuldade em crer que um dia houve na Vila Madá que conhecemos.

Por outro lado, mudar-se para essa casa era a forma de aproximar-se do cliente final e de ter aquele contato tête-à-tête de quem consegue captar imediatamente a impressão sobre um bolo, uma sopa ou uma torta – muitas vezes pelos olhos que se fecham em sincronia com lábios sorridentes e o contentamento expresso por um longo “Hummm…”.

Isso é comfort food!

Embora confeccione os mais diferentes tipos de doces para atender a vários restaurantes e cafés na cidade, a escolha por uma culinária isenta de invencionices e que mantenha a originalidade das receitas tem a ver com o objetivo de Laura: promover aconchego e bem-estar através dos sabores de suas receitas.

Tente não se desmanchar deliciosamente com a colherada do Pudim de Claras! Resista às nozes, seja no pedaço de bolo no qual a doceria dos conventos de Portugal surge em forma de baba-de-moça, ou mesmo às brilhantes pecans da torta! Resista aos cremosos empadões, à torta de banana com creme de baunilha ou aos docinhos para se comer usando colher…

Em tempos de glamourização dos mais diversos itens de consumo, a Doce de Laura não se rende à pastelaria fina, mantendo o estilo que a evidenciou desde o início: receitas tradicionais capazes de nos remeter a momentos em que nos sentimos acalentados, felizes, amados, ou àqueles em que simplesmente não precisamos nos agitar por nada, nem responder a mais um WhatsApp – apenas tomar o chá de maçã e lamber o resto do cream cheese daquela torta Romeu e Julieta.

Desde setembro de 2018 a doceria, que continua na Vila Madalena, ocupa um sobrado na Rua das Luminárias, e permanece revelando o que há por trás dos doces que lá são feitos: aconchego, acalento, carinho, coisas de que tanto precisamos e que alguns ou muitos minutos naquela simpática casinha são capazes de nos dar. Doce motivo para ir à Doce de Laura.

Karina Del Monte Schiavon é editora do Lugarzinho

Endereço & Contato

Endereço:

Rua Luminárias, 94

GPS:

-23.548042, -46.688512

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