Por Pedro Schiavon

O site da casa descreve com perfeição: “Sagarana é uma pausa. Uma passagem no tempo-espaço. Um portal. Desprenda-se da miríade de compromissos que São Paulo te impõe. Sagarana tem seu próprio tempo e você vai se sentir bem nele. Desencane do medo e do stress da cidade grande. No Sagarana todo mundo é amigo, companheiro, colega, parceiro. Sagarana é um pequeno, quase secreto endereço em São Paulo. Uma esquina sem tempo nem espaço, onde as pessoas podem exercitar o prazer de ser gente de novo”.

Veja bem, meu caro João Guimarães Rosa, e perdoe-me o pastiche: você zarpou dessa sagarana há mais de 50 anos e portanto, seja lá onde você anda, não faz a menor ideia do que seja um site e isso nunca lhe fez a menor falta. “As coisas mudam no devagar depressa dos tempos”, mesmo. Mas o que interessa é que desse tal empório você ia gostar e muito porque, ele sim, estava fazendo uma falta que só.

O danado fica num lugar que para encontrar tem que sair buscando. Ele abre no comecinho da noite, num trecho escuro e quieto da Vila Romana, e a gente passa e vê num relance tão ligeiro, que só depois vê que tinha visto. Vê uma luzinha amarelada e convidativa saindo de uma pequena casinha de esquina e tem a sensação embolada de que aquilo não era para estar ali, mas na paisagem das fazendas e dos vaqueiros das Gerais.

Antes que você fique entediado e pegue a saudadear, vou descrever o lugar: uma casa composta de uma única sala com um balcão de madeira da boa dividindo ela quase ao meio. Do lado menor ficam os donos da casa com as geladeiras e uma bancada que serve de cozinha, de onde saem maldades mineiras como uns pescados defumados, queijos, cervejas e cachaças, tudo tinhosamente servido, cada um de um jeito, cada qual no seu copo.

Do outro lado do balcão é o espaço para os amigos, com meia dúzia de mesas lindamente rústicas e algumas banquetas de ferro, onde dá para se aboletar e folhear livros de culinária mineira, de arte barroca e até o seu Sagarana. Na volta toda, prateleiras de peroba com tentadores potes de geleia, queijo, mel, mantas e garrafas de cachaça forram as paredes, pintadas de amarelo.

Um Chico, um Caetano e um Milton saindo baixinho das caixas de som completam a bucólica atmosfera de um armazém isolado em uma cidadezinha qualquer.

A ideia disso tudo é do Paulo e da Priscila. Ele, artista plástico e grande sabedor das artes cachacísticas. Ela, pedagoga e mestra no preparo dos petiscos. Os dois mineiros dos bons, como você, mas de Alfenas, um bocadinho mais perto daqui.

Lembra quando você saiu mundão afora sempre levando as Minas Gerais encaramujadas dentro de ti? Pois eles matutaram um jeito de trazê-las para cá num tamanho um pouco maior, de um jeitinho que coubesse o casal e mais umas duas dúzias de amigos bem espremidos dentro.

O causo é que eles já estavam aqui há uns anos e começou a doer aquela dor que só a saudade dói, aquela preguiça que essa pressa sem caminho de São Paulo dá, principalmente em quem não brotou dela. Mas você já tinha ensinado que “a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Então, para nossa sorte e para não fazer desfeita a gente tão importante, o simpatissíssimo casal mandou vir as mineirices devidamente embrulhadas e engarrafadas. E para não cair na tentação de sair pelo mundo, trouxe o mundo todo para cá, dentro de garrafas de cerveja. Nem sei quantas são. Na verdade, nem eles. No cardápio tem umas 80, de tudo que é canto do mundo, mas sempre tem umas que não chegam e outras que chegam sem ser devidamente apresentadas no cardápio.

E é isso, João. Como você sabe, a vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas ‘de São Paulo’. Tem as caras todas do Cão e as vertentes do viver. E esteja onde você estiver, apareça quando quiser.

A casa está aberta desde 2009 e vai continuar assim, daquele jeito que você sempre soube contar como ninguém, sempre pronta a receber os amigos queridos. Afinal, como afirmam o Paulo e a Priscila, as cachaças, as cervejas, os petiscos e as tortas “são apenas uma desculpa para a gente fazer o que mais gosta: voltar a ser gente”.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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