Por Pedro Schiavon

São duas e meia da manhã e o Estadão está lotado. Depois dos 50 anos de idade, até o balcão do bar já reconhece as pessoas que se aboletam diariamente sobre ele. Os funcionários identificam alguns, mas é tanta gente que passa por ali, que a rotina da casa nunca é igual.

Hoje, o jornalista Ivan já passou por ali. Ele vai constantemente ao Estadão para um lanche rápido. Esta tarde, milagrosamente as coisas estavam mais calmas na redação e ele pôde variar, pedindo um dos pratos feitos do cardápio.

A estudante Júlia também esteve por lá com os pais. Ela foi durante o dia, pois só tem 7 anos de idade. Apesar da preferência de sua mãe para que comesse um prato de comida – o que ela também gosta, sem dúvida – sempre luta bravamente pela oportunidade de um sanduíche de pernil.

O ator Paulo César gosta de cozinhar, mas hoje estava a fim de um sanduíche. Como costuma fazer quando essa vontade aparece, foi ao Estadão no começo da noite. Desta vez dispensou o pernil e escolheu um Beirute.

Erick não mora mais em São Paulo mas teve que vir à cidade para umas reuniões e aproveitou para relembrar o que chama de “o melhor lanche de pernil da face da Terra”.

Quem também anda longe dali é a jornalista Gilda, que lembra bem dos lanches de pernil de quando trabalhava no Jornal da Tarde. Ela não aparece por ali há um bom tempo, mas pensa em aproveitar uma de suas próximas visitas à cidade para matar a saudade.

Quem está ali agora é Diego, policial militar que trabalha em diversas regiões. Ele detesta quando é destacado para o centro da cidade, pois a rotina ali é sempre mais complicada. Porém, como hoje a noite ainda parece tranqüila, está aproveitando para devorar o picadinho do Estadão.

Quem está três cadeiras ao seu lado é Lilian, que é prostituta e ganha a vida ali por perto, perambulando entre boates e motéis baratos da região. Ela ainda não sabe se voltará para casa ou para o trabalho quando sair dali, mas no momento só pensa no prato que está quase pronto e que pretende devorar sem a menor pressa e sem pensar em nada.

O guitarrista Tiago acabou de chegar, pois tocou com sua banda a uns quarteirões dali e resolveu esticar um pouco para comer no Estadão. Ele gosta de tudo que tem no cardápio e principalmente do tamanho dos pratos, mas não troca a lasanha por nada.

 

A empresária Flávia está dando as últimas recomendações aos funcionários de sua boate antes de ir embora. Ela irá passar no Estadão com um grupo de amigos estrangeiros para lhes apresentar o famoso sanduíche de pernil e demonstrar as peculiaridades da noite paulistana.

Não sei se o cantor Fausto conhece o bar, mas deveria. Ele é fã do sanduíche de pernil do Cervantes, em Copacabana, no Rio, onde freqüenta. O lanche de lá vem com abacaxi, mas a fauna urbana que freqüenta o local é basicamente a mesma.

Os heróis intergalácticos Han Solo, Chewbacca e Luke Skywalker nunca passaram por aqui, mas quando vierem à Terra certamente irão ao Estadão, porque é o lugar mais parecido com a Chalmun’s Cantina que encontrarão nesse planeta.

Inaugurado em 1968, o Estadão Bar e Lanches representa uma improvável capacidade de resistência desde seu nascimento – ou existiria uma data pior para montar algo cujo nome homenageia o jornal O Estado de São Paulo (que ficava no prédio vizinho) e, subseqüentemente, toda a imprensa paulista?

Pioneiro no atendimento 24 horas, o bar foi assumido em 74 pelos irmãos Waldemar e Oswaldo Zonta e hoje é dirigido por seus parentes Carlos Alberto Pereira de Nóbrega e Cícero Tiezzi. Desde sempre é cheio e efervescente, acompanhando o ritmo da metrópole.

Ali você encontra o trivial variado informalmente servido no balcão, sucos naturais, saladas, petiscos, drinques, feijoada e, claro, o mais saboroso sanduíche de pernil de São Paulo.

O famoso “pernil do Estadão” é um lanche simples, sem firulas. Pão francês, várias fatias de pernil bem assado e molho com cebola, tomate e pimentão. O tamanho impressiona e as várias fatias de pernil deixam o pão francês no limite da sustentação.

Para se ter uma idéia da rotatividade, basta dizer que a casa tem apenas 42 cadeiras e, assim mesmo, são consumidos, além dos outros pratos diversos, cerca de 5 toneladas de pernil por mês! Sem dúvida, um recorde.

O Estadão deveria ser tombado pelo Patrimônio Histórico. Ponto de referência geográfica, cultuado na noite e sempre aberto, ele representa – como talvez nenhum outro – a São Paulo que nunca dorme e onde todos convivem em harmonia.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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