A sua história é diferente da minha, da dela, das deles. Mas algumas coisas acontecem com todo mundo, de maneiras e com personagens variados, mas com vários detalhes idênticos.

Em algum momento da sua infância você entrou na cozinha e se deparou com sua mãe ou sua avó fazendo bolo de chocolate, chocolate quente ou qualquer outra coisa com calda de chocolate. Você pode lembrar vagamente da cena e talvez nem lembre direito do gosto, mas o cheiro… ah, o cheiro você nunca mais esqueceu.

É mais ou menos esse cheiro que “perfuma” os ares da Helô Doces, pequena fábrica de guloseimas de Heloísa Monteiro da Silva escondida há mais de vinte anos em uma ruazinha entre a Vila Madalena e a Vila Beatriz.

Mas essa história começa muito antes, quando a ainda menina Heloísa também aprendeu com a mãe os truques dos bolos, ajudando no preparo das sobremesas quando ainda mal alcançava o fogão. Foi assim até crescer, apaixonada pelos doces e, principalmente, pelo chocolate.

A Helô já adulta montou sua primeira confeitaria nos anos 70, ao lado do primo Charlô Wattely, que depois se tornaria um dos maiores banqueteiros da cidade. Mas para a Vila já seguiu sozinha, com suas receitas já aperfeiçoadas até chegar ao doce que conquistaria os paladares da cidade: o brownie.

O brownie, ícone da culinária americana, é um daqueles erros que deu certo. Ninguém sabe direito quando nem onde surgiu, mas tudo indica que foi quando alguma cozinheira esqueceu de adicionar fermento ao bolo, deixando-o espesso, macio, um tanto grudento e com uma alta concentração de chocolate.

Sua fórmula básica leva apenas cinco ingredientes: ovo, açúcar, cacau, manteiga e farinha. Só que o da Helô não leva farinha. É claro que sua fórmula mágica é secreta, mas algumas coisas são reveladas sem qualquer problema, como a tal ausência de farinha, o uso somente de chocolate de qualidade e a utilização de uma manteiga especial, com menos soro, fabricada sob encomenda.

E nem só do brownie tradicional vive a fábrica. Há uma infinidade de doces de deixar qualquer um com água na boca. São tortas de limão, pecan e amêndoas com damasco; bolos de framboesa, brigadeiro, damasco, morango e outros; merengues de chocolate, damasco, morango e pistache; mousses de framboesa, chocolate e maracujá; cheese cakes de goiaba, damasco e framboesa; bolos de sorvete com framboesa, pistache ou avelã; Petit Gateaus de chocolate, doce de leite e goiaba; brownies de nutela, doce de leite, damasco, macadâmia e muito, muito mais.

Mas convém avisar: se você for até lá buscando uma doceria com vitrine, mesinhas e cadeiras, nada verá. Para atender o público, há apenas um pequeno balcão com a lista completa dos produtos da casa. O local é, na verdade, uma simpática fábrica com uma escola de culinária para adultos e crianças instalada em seu andar superior, onde Heloísa e sua equipe ensinam o preparo de doces e salgados e realizam eventos para grupos, nos quais os participantes são convidados a preparar e comer seus próprios confeitos.

Com isso tudo, lá se vão quase duas toneladas de açúcar e de chocolate por mês – da embalagem para as panelas, das panelas para os pratos, dos pratos para milhares de estômagos espalhados por aí.

E é claro que o brownie continua sendo o campeão dos pedidos. A procura é tanta que ele já pode ser encontrado por aí, nos supermercados mais requintados. Mas por algum motivo a turma ainda prefere buscar na própria fábrica. Pode ser pela tradição, ou talvez por simpatia mesmo. Mas certamente é também por um pouquinho de saudade da infância.

 

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