Por Karina Del Monte Schiavon

Que tal produzir “alimento orgânico, fresco e maravilhoso” em sua própria casa ou numa praça do seu bairro, podendo se relacionar com outras pessoas de uma maneira saudável, fazendo uma coisa que é muito boa para você, para a cidade e para o planeta?

Assim, de cara, essa idéia, alegremente defendida pela jornalista paulistana Claudia Visoni, pode parecer um pouco estranha, especialmente para quem nasce e é criado em grandes centros urbanos como São Paulo, mas tem sido justamente nessa metrópole que um grupo de pessoas das mais diversas profissões se animou a cultivar nada menos do que hortas.

Claudia, que se achava a pessoa mais urbana do mundo, num belo dia utilizou o jardim de sua casa para plantar algumas folhas e ervas e imediatamente se encantou pelo mundo da agricultura urbana. Passou a pesquisar a respeito, a participar de cursos, tão grande era a vontade de saber para onde mais a levaria aquilo que, a cada dia, não lhe parecia mais apenas hobby. Com outra jornalista, Tatiana Achcar, formaram na web o grupo Hortelões Urbanos para promoverem a troca de informações entre interessados no cultivo de alimentos em casa.

Com uma proposta descomplicada, mas convincente, e um engajamento ativo para fazer com que ela vingasse e conquistasse corações e mentes de mais e mais pessoas, em pouco tempo o movimento das jornalistas já contava com milhares de participantes.

Dos encontros virtuais nasceu o desejo de transportarem a experiência para o “mundo real”, e foi assim que a primeira horta urbana dos Hortelões teve o seu espaço na cidade: a Horta das Corujas, na Vila Madalena.

Para que essa horta comunitária pudesse existir, foi necessária disposição e mão na massa de muitos voluntários, não apenas para plantar as sementes, mas para que o espaço de plantio fosse delimitado, a rega das hortaliças estivesse garantida, e também a colocação de arame para separar a horta do espaço de passagem de pessoas, seus cachorros e suas bicicletas fosse feito direitinho.

Ali, coube ao poder público autorizar o uso da praça e colaborar com materiais e com o apoio técnico de alguns agrônomos, mas quem cuida mesmo do crescimento da horta é a própria população.

A experiência na Vila Madalena havia dado certo. Tão certo que se saíssem um pouquinho de lá e chegassem com o projeto num lugar, digamos, mais movimentado, poderiam, pelo menos, contribuir na mudança da paisagem. Por que não uma hortinha na região da Paulista? E lá se foram os Hortelões Urbanos mexer na Praça do Ciclista, esse cara de sorte que também ganhou uma horta!

Um monte de gente plantando, um monte de gente se ajudando, mas, enfim, plantando para quem ou para quê? Plantando para quem quiser levar. Isso mesmo: as hortas comunitárias são feitas para quem quiser pegar alguns temperos, algumas verduras e até algumas frutas, porque, como o próprio nome diz, a horta é um bem comum.

Esse é mais um aspecto curioso da iniciativa: estamos tão acostumados a pagar pelas coisas que precisamos, que quando nos dizem que podemos levar para casa algo cultivado por pessoas que nem conhecemos, soa estranho. Mas só num primeiro momento; só até quando a forma de pensar a que estamos acostumados insistir em não dar o valor devido ao coletivo.

Hoje existem mutirões para plantio e hortas comunitárias em muitos lugares na cidade. Na Zona Leste, dezenas de hortas são cultivadas. No Sul, no Norte e até no Centro também. Outro bom exemplo é na própria Vila Madalena, onde facilmente se pode encontrar, num início de tarde de domingo, amigos e vizinhos de todas as gerações com as mãos na terra, cuidando da Hortinha do BNH.

Os Hortelões Urbanos estão cada vez mais ativos, enchendo a cidade de novos canteiros. O grupo é aberto e todos podem participar, seja navegando e visitando a página no Facebook, seja indo numa manhã de cultivo das hortas.

A cidade em que vivemos, qualquer que seja ela, pode, sim, ficar mais bela e funcional, e a ideia de poder levar à mesa legumes orgânicos é sempre muito boa. Além disso, a proposta que nasceu de uma iniciativa simples de alguém que queria plantar no quintal de casa, entre outras coisas, ajuda a ter de volta o sentido de comunidade, de que é possível realizar um projeto comum com outras pessoas, mostrando que restabelecer a confiança no próximo é plenamente possível e pode valer muito a pena. Basta querer e tentar.

 

Karina Del Monte Schiavon é editora do Lugarzinho

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