Por Pedro Schiavon

O sorvete é uma invenção dos chineses aperfeiçoada pelos árabes e transformada em algo quase celestial pelos italianos. E apesar de a geladeira só existir a um século e meio, a adoração ao “gelato” já dura milênios.

Diz a história que há mais de 3 mil anos os chineses misturavam neve com as frutas para preparar algo parecido com o sorvete. Com técnica semelhante, os árabes passaram a preparar caldas geladas chamadas de sharbet, que viraram os afrancesados sorbets, famosos sorvetes sem leite.

O primeiro grande salto na história ocorreu no século XIII, quando Marco Polo levou do oriente para a Itália o segredo do preparo dos sorvetes com técnicas especiais, criando uma moda que logo se espalhou pelo país.

O segundo salto, é claro, veio com a invenção da geladeira, na metade do século XIX, e que possibilitou, entre tantos benefícios, a fabricação do “sorvete tipo italiano” em qualquer lugar do mundo. E como “qualquer lugar do mundo” inclui o Brasil, os jornais paulistanos do dia 4 de janeiro de 1878 chegavam ao público com o seguinte anúncio: “Sorvetes – Todos os dias às 15 horas, na Rua Direita, nº 44”.

Mas não bastava. O ser humano não se sacia com pouco e, aos poucos, foram surgindo invenções já um tanto pecaminosas, como o sorvete napolitano, o sundae, o milk shake, o banana split e, depois, finalmente, os chamados “sorvetes finos”.

É nesta etapa que começa a história do italiano Carlo Maveri. Nascido na pequena Busto Arsizio, Carlo trabalhou na fabricação de sorvetes até resolver mudar de vida e vir para o Brasil, ainda nos anos 70. Sua idéia era trabalhar com eventos, mas quando percebeu que sua vocação (e a tentação) para o sorvete era mais forte, resolveu investir na sua produção.

Nascia assim, em 1989, a Italian Desserts, empresa pioneira na fabricação de sorvetes elaborados, como o tartufo, amore di coco, flambeau, cassata e outros. Pioneira também na criação de sabores especiais feitos sob encomenda, como caipirinha, queijo ou o que mais o cliente quiser.

Dez anos depois, como manda a tradição italiana, Carlo levou seu filho Matteo Maveri, já formado em outra profissão, para trabalhar ao seu lado. Apaixonado pela produção dos sorvetes e levado pela necessidade de deixar o pai descansar um pouco, ele assumiu a frente dos negócios em 2004.

Cheio de entusiasmo, Matteo mergulhou em cursos e especializações na Itália e na Suíça. Como consequência, encheu-se de novas idéias, ampliou os negócios e criou novos e exóticos sabores, atraindo um leque de mais de 200 restaurantes para sua clientela, além dos melhores clubes, buffets e companhias aéreas, e de alguns iluminados que descobriram a pequena e discreta porta quase que camuflada em uma rua de Pinheiros.

Sei não, mas acho que, como nas histórias do Veríssimo, pai e filho devem ter hesitado muito antes de lançar cada novo produto no mercado. A preocupação nunca deve ter sido com concorrência, aprovação ou qualquer coisa do tipo, já que os produtos são praticamente imbatíveis. Eles deviam temer é pela corrupção irrecuperável da humanidade. Depois de provar os tartufos, flambeaus e cassatas, as pessoas poderiam se ver fragilizadas, indefesas diante da autoindulgência ou perdidas pela culpa.

É provável que tenham até pensado em vender o sorvete com um aviso, como nos cigarros: “Atenção: pode causar dependência ou ruína moral”. Contudo, seguiram em frente, conquistando os paladares mais exigentes sem dó ou qualquer peso na consciência.

E agora essa: depois de uma reforma de alguns meses, Matteo transformou a frente da fábrica em uma pequena sorveteria, onde atende o público para o livre consumo de seus sorvetes, sem restrições, em plena luz do dia até uma parte da noite!

Quando a pequena porta com tijolos pintados como os da parede se abre, o desinformado público encontra pela frente uma vitrine de tentações. São sorvetes “do tipo italiano” de sabores como zabaione, pistache, morango real, pera, maçã verde, avelã, pêssego, cerveja, whisky, chocolate belga, um outro chocolate sem lactose e sabe-se lá mais o quê.

Encontra também uma outra geladeira com picolés do tipo gourmet, daqueles mais elaborados e com produtos refinados, inaugurando uma nova linha de maravilhas da casa. E encontra ainda sorvetes em novos formatos, como o milk shake que leva vodka com sorvetes de tangerina, maracujá, pêra ou limão.

Se tudo isso não bastasse, a reforma deu à fabrica ares de uma “casa de amigos que vende sorvetes”, com a simpática escadinha que acolhe as visitas na tranqula calçada da Alves Guimarães, sob uma iluminação que chega a animar para a balada e ao som de deliciosos flashbacks escolhidos pelo próprio Matteo.

É possível que muitos dos que forem nunca mais queiram voltar para suas casas. Não digam que eu não avisei.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

 

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