Por Pedro Schiavon

Você acredita em assombração? Acha que uma casa pode guardar as energias de vidas passadas? Que algumas paredes possam ter presenciado tanta vibração que a simples aproximação delas te faça reviver sensações diversas, do medo à euforia? Se quiser tirar a prova, seja bem-vindo ao Madame Satã.

O Início

Lá se vão décadas daquele outubro de 1983. O Brasil vivia o final da ditadura e a juventude começava a sonhar com liberdade quando os irmãos Wilson e Williams Silva e as irmãs Márcia e Miriam Dutra – quatro apaixonados por teatro mambembe – se juntaram a José Cláudio Mendes para criar um espaço que pudesse unir gastronomia, cultura e diversão.

Surgia assim, no meio do Bexiga, o Restaurante Cultural Madame Satã, um lugar que em pouquíssimo tempo deixaria de ser restaurante e passaria a abrigar shows, desfiles, peças de teatro, poesia, performances e as histórias mais incríveis de sua época.

Interior da casa noturna Madame Satã.

Anos 80

Quem estava lá, viu. E quem não viu ouviu falar. Os anos 80 apresentaram ao mundo uma mistura louca de várias tribos: do new wave aos skinheads, dos punks aos góticos. E todos eles frequentavam a casa da Conselheiro Ramalho junto com gente da moda, do jornalismo, das artes, marginais, travestis, freaks e o que mais houvesse.

Ali era o epicentro do underground paulistano e, por algum motivo, todo mundo respeitava isso. As turmas podiam até se pegar do lado de fora, mas dentro da casa era o espaço sagrado onde todos podiam experimentar, mostrar sua irreverência e testar sua ousadia.

A liberdade era total e o conceito de underground levado sempre ao pé da letra. Pessoas apareciam e assumiam seus personagens, como a “gorda” que ficava comendo no palco ou o “Mãozinha”, que ficava puxando o pé das pessoas enquanto dançavam. Tipos que surgiam e ficavam para sempre, incentivados pelos donos e cultuados até no fanzine da casa.

O porão extremamente escuro era habitado por gente de todas as esferas, como Mau Mau, João Gordo, Marcelona, Cazuza, Pepe Escobar, Nuno Ramos, Matinas Suzuki, eu e você. Gente que fez escola no Satã e que assistiu ali pela primeira vez toda uma geração de bandas paulistanas, como o Ira!, os Inocentes, o RPM e os Titãs.

E ouviu também uma infinidade de sons diferentes, saídos das picapes dos DJs Magal e Marquinhos MS – sons que só tocavam ali e nem adiantava procurar em outro lugar, e outros que despontavam para o sucesso mas antes tocava naquela escuridão, como Depeche Mode, The Cure, Siouxsie e tantos mais.

A febre durou até o final dos anos 80, quando todos foram se afastando e a casa foi ganhando um clima estranho e melancólico. Ficaram apenas os darks e góticos, cada vez em maior número, num clima cada vez mais sombrio.

Morcegóvia, The The e o fim

Morbidez e depressão por todos os lados. Góticos em profunda tristeza e darks de boutique em fila aguardando que a porta se abrisse. Este foi o cenário que levou a casa a mudar seu nome para Morcegóvia.

A coisa pegou e o Morcegóvia foi sucesso na noite sombria de São Paulo por quase uma década, até cair novamente. Houve então uma nova tentativa com o nome de The The e, por fim, uma volta ao nome original.

Aí, porém, a coisa desandou. Festas bizarras, instalações problemáticas e eventos de gosto bem pra lá de duvidoso fizeram com que o antigo público fugisse e repudiasse o Madame.

Os problemas elétricos e hidráulicos somados à falta de segurança fizeram com que a casa fosse interditada inúmeras vezes pela prefeitura até que, em 2007, após 24 anos de aventuras, chegasse – triste, decadente e abandonada – ao fim.

Os fantasmas se divertem

Quem acordou os mortos em 2012 foram os sócios Gé Rodrigues e Igor Carmona, DJ e empresários que conhecem bem os espíritos do passado.

Da casa abandonada e agora tombada como patrimônio histórico, pouca coisa se manteve em pé além da fachada. Foram trocados o encanamento, a parte elétrica, a pintura e até mesmo o telhado, mas mantém suas características fundamentais, como o porão, as paredes pretas e o clima esfumaçado.

Batizado só de Madame, embora para todos o nome sempre será o original, a empreitada trouxe de volta os shows de rock, as exposições, as performances e as peças teatrais. Trouxe também o punk-rock, o britpop, o psychobilly, o gótico e até a new wave.

E trouxe os fantasmas. É fácil senti-los, cantando e dançando, felizes e livres. Eles esperam por você no porão do Madame Satã.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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-23.559594, -46.644119

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