Por Pedro Schiavon

Se você gosta de conhecer outras culturas e provar pratos e petiscos autênticos de diversos países, você tem duas opções: viajar pelo mundo ou morar em São Paulo.

Só que esta segunda opção traz algumas armadilhas, como no caso da cozinha espanhola. Aos mais desavisados é possível acreditar que todo espanhol é rico e só come lagosta e paella.

Graças ao Dario Taibo, essa minha ignorância pôde ser superada. Dario é paulista, filho de galegos e morou dez anos em Madrid, onde provou diariamente dos pequenos prazeres do país.

Quando voltou, trouxe arraigada a idéia de reproduzir aqui exatamente o que mais apreciava por lá – a comida simples do dia a dia e os saborosos petiscos servidos nas tabernas hibéricas.

Assim nasceu o Maripili – diminutivo de “Maria Del Pilar”, nome pra lá de comum entre os espanhóis – uma autêntica “tasca” despretenciosa que serve “tapas”, pratos simples e bebidas em uma casinha propositalmente instalada em um pedaço tranquilo de Santo Amaro, longe do agitado circuito gastronômico paulistano.

Com o intuito de manter a informalidade e a intimidade com os clientes, montou o salão com apenas seis mesas e um balcão com algumas banquetas, do que os funcionários dão conta com muita agilidade e simpatia.

Para deixar claro o objetivo da casa, decorou tudo com referências à Espanha, mas com o devido cuidado de não transformá-lo em um espaço temático.

Primeira boa surpresa: a aparente simplicidade e o despojamento da casa escondem uma cozinha afinadíssima. Capitaneada pelo chef Luiz Macedo, que já atuou em estrelados restaurantes da cidade, ela oferece sabores premiados e que retratam, de maneira fiel, a cultura gastronômica da Espanha.

O exíguo cardápio estampa apenas dois pratos principais: a picante dobradinha e o rabo de boi cozido no vinho tinto guarnecido de pimentão, berinjela e tomate assados ao azeite, carros-chefe da casa. Mas, uma lousa na parede e outra do lado de fora mostram as sugestões do dia, que são diversas. Mas nem é preciso chegar a elas.

Como se trata mais de um bar do que propriamente um restaurante, os petiscos são ótimos, com muitos frios de alta qualidade e vários embutidos, como o fuet, o chorizo e a sobrassada – todos deliciosos – que são entregues diariamente por um senhor espanhol.

Há ainda diversas “tapas”, como o gazpacho (sopa fria à base de tomate), o revuelto de setas (um tipo de omelete com shitake), o pisto (molho grosso de tomate com pimentão) ou a tortilla de batata, uma das mais pedidas.

E tudo sem fazer concessões ao gosto local ou “abrasileirando” pratos. O que, em nome da tipicidade, também faz um grande bem ao cenário gastronômico de São Paulo.

Para acompanhar tudo isso, uma bela carta de vinhos, com opções em taças e garrafas de vinhos espanhóis, franceses, argentinos e portugueses, entre outros.

E aí, mais uma agradável surpresa. Dario Taibo é também um conceituado enólogo e diretor da “Sociedade da Mesa”, ou “Sociedade do livre exercício dos prazeres da mesa”, um clube de amantes do vinho.

Falando em nome do clube, Taibo é também um dos poucos a dizer todas as verdades sobre o vinho e a tentar “desmitificar” seu consumo, fazendo com que possamos apreciá-los sem “frescuras” ou “endeusamentos”.

Com isso, assim como todo o cardápio, a carta de vinhos do Maripili é simples e direta. Boa e honesta. É, tanto nas opções como nos preços, uma das melhores alternativas da cidade.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho.

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