Por Pedro Schiavon

Quais são as razões do sucesso de um bar? É difícil explicar. No caso “do” Mercearia, é quase inexplicável. São Paulo tem bares famosos pelo chopp, pela comida, pelo ambiente, pela simpatia, pelos preços. Nada disso é muito especial ali. Porém, o conjunto da obra é, sim, especialíssimo. Por isso está sempre cheio. A impressão que dá é que, um a um, bem devagarinho, ao longo de anos a fio, os clientes foram chegando, tomando uma cerveja, jogando conversa fora, conhecendo os donos e os garçons. E ninguém mais foi embora.

Conheço o lugar desde os anos 80, quando morei perto dali e a Marinalva, empregada da Cecília, fazia escala no “bar do ‘seo’ Pedro” qualquer que fosse seu destino, para tomar sua dose diária de “21”, algo entre a cachaça e o removedor, muito útil, segundo ela, “para espantar resfriado e para ficar esperta”.

A história da casa, porém, é bem mais antiga. “A” Mercearia nasceu em 1968, criada pelo ‘seo’ Pedro Benuthe, como uma vendinha de secos e molhados na então quase deserta Vila Madalena. A clientela “era formada por peões de obra, e a moçada. Desde sempre, a moçada. No princípio eram os estudantes do Max, o colégio em frente. Mesmo sem poder sair dos limites da escola, eles apinhavam-se no muro durante o recreio aguardando a saída dos mixtos-quentes e sanduíches de mortadela lentilhados do fogão da ‘dona’ Hend.

O empenho dos meninos do ‘seo’ Pedro começou aí. Eram eles que levavam os lanches até o muro para os alunos. Um momento do dia que deixava a família toda atordoada. O intervalo da meninada era sinônimo de adrenalina na Mercearia”. Pois foram os mesmos meninos – Marcos, Munir, Mirko e Pedro – que, ainda nos anos 70, convenceram o pai a comprar o bar vizinho e a transformar, mesmo a contragosto, a casa em um lugar com muito mais molhados do que secos.

A bonita saga da família Benuthe nos conta que Munir seguiu seu rumo na psicologia, Marcos seguiu sua paixão pelo cinema e Pedro tornou-se um especialista em alimentos, enquanto Mirko ficou tocando o bar. O destino, porém, levou o menino cedo demais.

Movidos pela tristeza e pela paixão pelo bar, Pedro e Marcos voltaram e assumiram o comando, sob os olhares atentos do pai. E passo a passo, cliente a cliente, mesa a mesa, o bar seguiu crescendo. Da experiência com a carne do Wessel, Pedrinho trouxe suculentas novidades para o cardápio do “Merça”. Do convívio com a turma do cineclube e com os escritores da Madalena, Marquinhos trouxe os filmes e livros que tomaram as paredes e prateleiras da casa. E, quando o velho timoneiro ‘seo’ Pedro se foi, sua pequena Mercearia já havia se tornado um dos bares mais tradicionais do bairro mais boêmio de São Paulo.

Sem jamais se afetar com qualquer modismo, o bar virou cult e caiu no gosto dos intelectuais da cidade. O bar tem clientes filhos de clientes e netos de clientes e até os que juram que, se qualquer coisa for modificada no bar-mercearia-restaurante-locadora-livraria-galeria-ponto de encontro, eles vão embora e farão propaganda contra. Então, o jeito é deixar como está.

Hoje, as latas de molho, os rolos de papel higiênico e as garrafas de detergente continuam lá, dividindo espaço com filmes de Alan Parker e Tarantino e com livros de Bukowski, Kerouac e de autores mimeografados e encapados pela meninada do projeto Dulcinéia Catadora. Tudo caoticamente organizado.

E foi dali mesmo, do alto das prateleiras, que durante esse tempo todo eles assistiram o pessoal do Raíces de América chegar para bater o ponto, o Nick Cave curtir os fins-de-tarde da Vila, o Xico Sá e o Sócrates discutirem futebol até desistirem de chegar a um consenso, a tropa da Orquestra Imperial chegar para um “esquenta” e depois voltar para uma “refresco” e tantas outras histórias malucas que só quem conhece acredita.

E quem também continua lá, como lembra Ronaldo Bressane, do blog Impostor, são as velhas garrafas que moram no alto da prateleira, e o pó que reside sobre elas, provavelmente desde os primórdios do bar.

E como nada muda, quem também continua lá é o França, o garçom mais antigo da casa. Está lá há uns 30 anos e, segundo o Marcos, “não se sabe muito bem quando e nem de onde surgiu. Deve ter vindo dentro de alguma garrafa de whisky paraguaio”.

O fato é que você não precisa ter pressa, pois – enquanto a gente quiser e a especulação imobiliária deixar – o velho “Merça” estará sempre lá. Mas se eu fosse você ia logo, porque o pessoal já está chegando, as mesas estão lotando e a conversa não tem hora para acabar.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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