Por Pedro Schiavon

– O que você fez ontem?

– Fui ao Mocotó.

Pronto. Tudo o que é preciso informar sobre seu dia já está incluído nesta única frase. E todo o restante já pode ser subentendido.

Quando você diz a alguém que “foi ao Mocotó”, além de despertar o descontrole de suas papilas gustativas, você já está contando um dia completo, que só traz pequenas variáveis de pessoa para pessoa, mas que compreende um roteiro praticamente igual e obrigatório a todos.

Esse roteiro, que vai da hora que você acorda já pensando no almoço até a hora que vai dormir ainda lembrando dele, é de conhecimento até mesmo daqueles que nunca foram ao Mocotó, pois tudo o que poderia ser dito sobre este lugarzinho, já foi dito.

Sabe-se, por exemplo, que você saiu cedo de casa e percorreu um bom pedaço do planeta para conseguir chegar lá antes do meio-dia e que, mesmo assim, encontrou uma multidão que já estava lá, sabe-se-lá desde quando, só para ficar na sua frente na fila.

Mesmo assim você ficou, já que aquela fila é diferente de todas as outras e praticamente faz parte do restaurante, sendo atendida com carinho e dedicação pelos garçons, que ali mesmo servem bebidas e petiscos que já valem o passeio.

Foi nessa fila que você tomou aquelas caipirinhas espetaculares de três limões, de amora com uva verde, de manga com pimenta, de jabuticaba ou de frutas vermelhas. E foi ali que você caiu matando no queijo coalho com mel de engenho, nos torresminhos, na cumbuquinha de carne de panela, na linguiça flambada com cebola roxa e cachaça e, principalmente, nos dadinhos de tapioca com queijo coalho e molho de pimenta agridoce.

Depois de uma hora e meia nesse sacrifício, você entrou. Como a sede já era de anteontem, você pediu primeiro as cervejas. Logo depois, as cachacinhas propostas pelo sommelier de cachaças (pois é, lá tem isso) conseguiram lhe abrir novamente o apetite.

Então começou a difícil missão de escolher entre uma infinidade de comidas nordestinas, que ao contrário do que a pseudo-concorrência oferece por aí, chegam a ser até delicadas tamanho o esmero com que são preparadas.

É claro que, mesmo assim, ninguém sai impune de pratos como favada, sarapatel, vaca atolada ou atolado de bode. É melhor se precaver e ficar no baião de dois, no feijão de corda ou nos escondidinhos. Melhor ainda é curtir a Costelinha de Porco, o Pirarucu Assado, a Panelinha do Seu Zé – um cozido de garrão com músculo, bacon, lingüiça defumada e mandioca – ou a Paleta de Cordeiro do Velho Chico, devidamente acompanhada de cuscuz de milho.

Sabemos que a esta altura você já estava quase desmaiando na cadeira, mas ainda não queria ir embora. Mais algumas cervejas, talvez. Mas foi justo aí que você foi conhecer o Rodrigo e seu pai, o “Seu Zé Almeida”, e com eles toda a incrível história do Mocotó.

José Oliveira de Almeida, o Seu Zé, chegou em São Paulo no começo dos anos 60, vindo de Mulungu, no sertão pernambucano, e trabalhou em tudo que se possa imaginar até montar com dois irmãos, já nos anos 70, a “Casa do Norte Irmãos Almeida” e, logo depois, o Mocotó.

Rodrigo Oliveira, seu filho, é o responsável pela grande transformação da casa ocorrida a partir de 2004, quando assumiu o comando das panelas. Jovem, boa pinta, simpático e de uma incrível simplicidade em tudo o que faz, ele parece indiferente ao fato de ser um dos chefs mais premiados da cidade, num momento onde sua profissão virou quase sinônimo de estrelismo.

Você sempre verá ambos por lá, atendendo clientes, orientando cozinheiros, criando novas receitas, batendo papo com amigos e ajudando os funcionários no que for preciso, confirmando suas próprias palavras no site da casa:

“Temos orgulho do nosso trabalho e dessa repercussão, mas não nos deslumbramos. A receita para manter uma casa por tanto tempo tem dois ingredientes: boa comida e hospitalidade. Mesmo parecendo simples, é algo que só se consegue com muita dedicação, talento e, acima de tudo, paixão”.

Antes de você conseguir ir embora, sabemos, não resistiu à sobremesa e encerrou o expediente com um creme brullé de doce de leite e umburana, com um pudim de tapioca ou com um sorvete de rapadura com calda de catuaba.

Finda a batalha – seja lá que hora isso tenha ocorrido – foi para casa e dormiu.

* Para acordar no dia seguinte, só com um bom Caldo de Mocotó.

Você vai tomando, suando e se animando. Consta que levanta até defunto.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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