Por Pedro Schiavon

“Nem tudo está perdido. Algumas coisas ainda nem foram achadas” (Millôr Fernandes)

São Paulo é uma cidade cheia de caprichos e preciosidades escondidas por aí. São lugarzinhos que pouca gente conhece e que pretendem continuar assim, pois é a única forma possível de manter seus encantos, seu atendimento tão pessoal e agradável.

Um desses lugares é o Patuá, que não é um restaurante nem um bar, mas sim a casa da Sra. Hélia Januária Bispo, mais conhecida por todos como Bá, uma simpatissíssima baiana que recebe a todos com os braços abertos, um turbante na cabeça e um inabalável e encantador sorriso no rosto. Ela é a anfitriã, a cozinheira e a amiga que você acabou de ganhar.

Hélia nasceu em Amargosa, cidadezinha vizinha a Salvador, e lá foi escolhida pela avó para aprender a arte do acarajé. A forma de se fazer acarajé é tradicionalmente passada de mãe para filha, mas no seu caso, foi de avó para neta, mesmo.

E é claro que a menina Hélia custou a entender a importância de seu ofício, como você fica sabendo pelas deliciosas histórias que ela conta com toda paciência e graça, revelando incríveis travessuras infantis e as consequentes broncas levadas, como na vez em que, aos 14 anos de idade, largou o tabuleiro na rua para seguir atrás do trio elétrico.

Crescida, experiente no ofício e buscando mudanças em sua vida, Bá desembarcou em São Paulo em 1989, e montou sua barraca de acarajé na 13 de Maio, no tradicionalmente italiano Bixiga. Ali, trabalhou por 12 anos e conquistou amigos e clientes fiéis.

Em 2001, com problemas para conseguir a licença para trabalhar na rua, mudou-se para uma casa do bairro e instalou no porão seu pequeno estabelecimento, freqüentado inicialmente pelos amigos, depois pelos amigos dos amigos e então pelos novos amigos que foi fazendo pela cidade.

Na frente do velho sobrado não há qualquer sinal de que ali funcione um restaurante. Após tocar a campainha e ser recebido pela própria Bá, você entra em sua casa, atravessa a sala, a cozinha e desce uma escada que leva a um charmoso quintal anexo ao porão de teto baixo e dividido em três ambientes, dois com mesas à sua escolha e outro com almofadas espalhadas pelo chão.

Por todo lado, cores e mais cores, fotos, imagens de orixás e abadás do Ilê Ayê. Um espaço acolhedor, com objetos típicos e artesanatos, onde um delicioso e suave som de Dorival Caymmi e Gal Costa completa o clima de Bahia.

Cabe no máximo umas 15 pessoas, mas Bá evita essa “lotação”, para que possa receber cada um com atenção e carinho únicos. Por isso não divulga o endereço e para ir até lá é preciso ligar e agendar diretamente com ela, com uma certa antecedência.

Passadas essas etapas, é hora de atacar os acarajés. Eles são perfeitos e grandes, feitos de um modo que desmente qualquer fama de preguiça baiana, com a massa de feijão-fradinho batida exaustivamente e depois frita no azeite de dendê.

O restante do cardápio é narrado pela própria Bá, enquanto puxa um papo atrás do outro. E tudo é muito tentador. Mas é aí que você volta a lembrar do Millôr, que malandramente alerta que “o problema de resistir a uma tentação é que você nunca sabe quando terá outra chance”. E então segue em frente.

Tem a mandioca frita na manteiga de garrafa, o escondidinho de carne seca, o arrumadinho (um tipo de cuscuz meio seco misturado com carne-seca, queijo-coalho e feijão-fradinho), a sugestão da baiana (carne-de-sol com farofa e abóbora cozidas na manteiga de garrafa), bobó de camarão (com arroz e farofa de dendê com amendoim e castanha de caju) e um bocadinho mais.

Quase tudo foi aprendido em casa, prestando atenção e aperfeiçoando dia após dia. Quase tudo leva azeite de dendê, que deixa a casa com um típico perfume no ar. Quase tudo leva leite de coco, que Bá rala na hora. Quase tudo fica ótimo com a pimenta da casa, que é saborosa e forte, mas não daquelas que, como diz a anfitriã, “ardem até o juízo”. E tudo faz você se sentir em casa.

Bá era o apelido carinhosamente dado pelas crianças às suas amas de leite – mulheres, normalmente negras, que ajudavam com seu leite na amamentação dos bebês e que normalmente acabavam por se tornar um tipo de mães de criação daquelas crianças.

Hélia Januária Bispo ganhou seu apelido de um cliente que virou amigo e escreveu a ela uma carta de agradecimento, na qual a chamava pela primeira vez pelo nome que, emocionada, resolveu adotar. Ela não teve filhos, mas é a Bá de muitos sobrinhos e incontáveis amigos com quem compartilha, diariamente, todo o axé de seu Patuá.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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