Por Karina Del Monte Schiavon

Os dias têm passado tão depressa que por vezes a gente chega a pensar que há algo errado; de repente, um feriado vai se mostrando à frente. O que fazer? Dormir? Viajar?

Então você se descobre amante da natureza e bate uma vontade de, sei lá, testar os próprios limites e, quem sabe, fazer trekking! Sem problemas, mas vou te dar bons motivos para convencer aquele ou aquela crush a te fazer companhia – não que seja impossível a caminhada solitária de 2.105 metros de altitude, mas, na companhia de alguém, é, pelo menos, mais divertido fazer a trilha do Pico do Papagaio, a principal formação rochosa de uma cordilheira pertencente à Área de Proteção Ambiental da Serra da Mantiqueira, localizada no Parque Estadual da Serra do Papagaio, na cidade de Aiuruoca, Minas Gerais.

Naquelas bandas da Serra da Mantiqueira, várias coisas têm a palavra papagaio: Parque Estadual da Serra do Papagaio, Pedra do Papagaio, Ribeirão do Papagaio e o próprio Pico do Papagaio, mas, para quem não sabe, o nome da cidade, Aiuruoca, vem de uma palavra de origem tupi-guarani – Ayu-ru-oca – que significa “a casa do papagaio” e, segundo o arquiteto e urbanista José Pedro de Oliveira Costa, docente da FAU-USP, refere-se a uma das mais belas espécies dessa ave, o papagaio-do-peito-roxo, hoje ameaçado de extinção.

Aventureiros de ocasião precisam saber que não é recomendável a tentativa de visita ao Pico do Papagaio sem um preparo físico prévio. Em outras palavras, se você não pratica nenhuma atividade física, entenda que essa escalada exige bastante, especialmente de joelhos e pernas, então, antes de passar vergonha com o/a tal crush que mencionei, verifique se poderá mesmo percorrer os quase 15 quilômetros de ida e volta, sem precisar de resgate, ok?

Há quem queira ir “o mais leve possível” e outros que saem preparados para resistir a um ataque nuclear, mas basta seguir um check-list assim antes de partir: calçados de trekking, boné, protetor solar, camisetas leves e respiráveis para trilhas, jaqueta impermeável, squeeze com água, que poderá ser reabastecido em alguns pontos da trilha; uma câmera fotográfica é item indispensável; frutas secas, nozes e alguns sanduíches são um ótimo lanche, tudo isso arrumado em uma mochila que não seja um trambolho e que acabe te cansando ainda mais. É bom já estar com uma roupa de banho por baixo da calça e camiseta, porque você encontrará riachos, cachoeiras, lagos e poços d’água (como o Poço Azul) pelo caminho, e, se o clima estiver favorável, vai querer se refrescar.

Por isso, nada de começar tarde a caminhada, porque, aqui, estamos falando de uma trilha sem pernoite, embora o Pico do Papagaio emane uma paz que parece convidar ao pouso e descanso – só não queira fazer isso na primeira ida, combinado?

Considere que são vários os acessos que levam ao Pico: pelo Retiro dos Pedros, Vale dos Garcias, pelo Vale do Matutu, com níveis de dificuldade diversos, e você não precisa começar pelo mais complicado. Aqui a sugestão é fazer a partir da Trilha do Fogão que começa na Cachoeira dos Garcias, pois partir de um ponto elevado torna o início da subida mais leve. Além disso, nela há mais trechos de vegetação baixa e arbustos do que de mata fechada, e a vista por todo o caminho é belíssima.

São aproximadamente 30 metros de queda livre de água que transbordam da Cachoeira dos Garcias, composta pela confluência de dois ribeirões, formando ao final da queda d’água uma maravilhosa piscina natural. É uma das muitas cachoeiras da Mantiqueira, a montanha que goteja – mais uma explicação do dicionário tupi-guarani.

Passado o primeiro e mais leve trecho da subida, onde há cambuís menores do que conhecemos, a paisagem começa a ter contornos mais rupestres; bosques de araucárias passam a integrar o cenário, e longos trechos de relva e samambaias.

Continuando a subida, vê-se que por trás de uma aparente monotonia se esconde grande biodiversidade vegetal e inúmeras espécies que se desenvolvem exclusivamente naquela região, em função da altitude. É impossível não se encantar com a beleza das bromélias, das quaresmeiras, ou não querer se abrigar sob as copas das candeias.

É clara a mudança de vegetação conforme se avança pela trilha: o cerrado, nas áreas mais inclinadas, se transforma em mata rala, e as azaleias surgem entre densa vegetação. Adiante, um solo escuro, úmido e vegetação baixa, e lá no topo, a mata serrana, com árvores de cerca de 20 metros de altura.

São imagens como essas que amenizam a dureza da subida íngreme em alguns trechos, esforço que é recompensado ao se alcançar o cume, de onde se tem emocionante vista de 3600 de toda a Aiuruoca, de um mar de montanhas de diferentes nuances; um trajeto no qual se pôde ter contato com a natureza, respirado um ar puríssimo e sentido como é bom viver.

Para pessoas que, como eu, enlouquecem algumas vezes com a dureza das grandes cidades, nada melhor do que encerrar com um pensamento atribuído ao cientista Louis Pasteur, inventor, entre outras coisas, da vacina contra a raiva: “Maravilhar-se é o primeiro passo para um descobrimento.”

Dicas da Kaká:

Embora possa ser visitado durante todo o ano, entre os meses de maio e setembro a ocorrência de chuvas costuma ser menor. Considere esse período para fazer o seu trekking no Pico do Papagaio.

Leve sacos em que possa armazenar e levar o lixinho que você produzir durante a caminhada. Infelizmente, ainda há quem despeje dejetos na mata, o que além de feio é desrespeitoso.

Se observar algo esquisito e que mereça a atenção da Administração do Parque, denuncie. Ainda que não dê em nada, você vai se sentir feliz ao lembrar que agiu pensando no bem de muitas pessoas.

 

Karina Del Monte Schiavon é editora do Lugarzinho

 

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Endereço & Contato

Endereço:

Pico do Papagaio, Aiuruoca

GPS:

-22.083860, -44.690038

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