Por Pedro Schiavon

“A praça é do povo como o céu é do condor. É o antro onde a liberdade cria águas em seu calor”, disse o poeta Castro Alves.

São Paulo é uma cidade de feirinhas de arte. Fora as feiras anuais, como a da Pompeia, do Brooklin ou da Vila Madalena, há feiras semanais famosas, como a do MASP, a da Praça da República, a do Bixiga ou a da Liberdade. Mas talvez nenhuma delas exemplifique tão bem os versos do “Poeta dos Escravos” quanto a feira da praça Benedito Calixto, em Pinheiros.

Ponto de referência cultural, a “Benedito” é frequentada por um público um pouco mais exigente, formado por jovens e idosos, héteros e uma grande parcela de homossexuais, famílias e crianças, brasileiros e muitos estrangeiros, artistas, decoradores e desocupados. Gente de todos os tipos que deixa a feirinha de sábado com um clima feliz, descontraído, iluminado.

A história da feira começa em 1985, quando um grupo de amigos que lutava pela reforma da praça e por sua utilização para lazer e cultura, resolve fundar a Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto e, com ela, a feira.

E assim numa área de 4.500 m2, dos quais cerca de 40% são de área verde, instalaram-se de imediato dezenas de barracas que vendiam artesanato, antiguidades, roupas, discos, livros, brinquedos, louças, móveis e diversas outras coisas, cujo sucesso foi tanto que hoje as barracas passam de trezentas, e muitos galpões foram criados ao seu redor para abrigar mais expositores.

Também graças ao sucesso da feira, ali surgiram inúmeras lojas de decoração e artesanato – algumas das melhores da cidade, além de uma série de bares e restaurantes, capitaneados pelo Consulado Mineiro, pioneiro ao abrir suas portas ali, em 1991.

Podemos afirmar que o ponto forte da feira, como em muitas outras, são as antiguidades. Entre cristais, louças, talheres e abajures, podemos encontrar antiquíssimas máquinas fotográficas, pinguins de geladeira, garrafas de crush, jarras plásticas em formatos de abacaxi, óculos dos mais diversos tipos e por aí vai.

O destaque desta parte da feira fica com a barraca do “Museu da Voz”, criado por Jorge Narciso Caleiro Filho e pelo jornalista Luiz Ernesto Kawall (que, aliás, foi colega de meu pai) e que reúne um acervo de mais de 4 mil vozes gravadas, incluindo depoimentos de Santos Dumont e Thomas Edison, declamações de Cora Coralina, pronunciamentos de Adolf Hitler e de Indira Gandhi e mesmo uma gravação da atriz alemã Marlene Dietrich cantando “Luar do Sertão” em português. O museu funciona dentro do apartamento do jornalista na própria praça, mas a barraca que o representa, uma das pioneiras da feira, está nela todo sábado.

Outra coisa que chama a atenção de adultos e crianças por ali são algumas barracas que vendem brinquedos de todas as idades. São bonecos de personagens ou super-heróis, carrinhos, jogos, robôs, gênius, ataris, autoramas, telejogos e uma infinidade daquelas coisas que marcaram a infância de todos nós.

Mas nem só de antiguidades vivem as barracas e por lá podemos encontrar, entre centenas de outras opções, as bonequinhas de pano da Ana Mainieri, as deliciosas e criativas roupas da Vera Verão, as sedas pintadas à mão da Marlene, as marchetarias do Carlos Alberto Martins, as luminárias artesanais do Marco, as incríveis máscaras do José Toro-Moreno e, claro, a barraca do André, querido amigo que, depois de 15 anos de feirinha, mudou de ramo, mas por precaução ou apego deixou seus incensos, produtos esotéricos e peças balinesas, tailandesas e indianas nas mãos do Eduardo, no mesmo ponto.

Uma outra coisa que diferencia a feira das demais é o projeto “Autor na Praça”. O projeto, cuja ideia básica é a de aproximar os escritores do público através de palestras, bate-papos e tardes de autógrafos em plena praça, surgiu há 20 anos da iniciativa coletiva do produtor cultural Edson Lima, do poeta e jornalista Fred Maia, do designer gráfico Marcelo Max, do jornalista Mouzar Benedito e do escritor e dramaturgo Plínio Marcos, que foi o primeiro a se apresentar, acabou se tornando o padrinho do projeto e, após sua morte, deu nome ao espaço onde ele é realizado.

Pelo Autor na Praça já passaram centenas de convidados, entre nomes como Ignácio de Loyola Brandão, Eduardo Suplicy, Chico e Paulo Caruso, Juca Kfouri, Washington Olivetto, Lourenço Diaféria, Regina Echeverria, Frei Betto, Tatiana Belinky, Roberto Freire e até o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Mesmo com tudo isso, o epicentro da feira é mesmo a sua pequena praça de alimentação, onde o pessoal se aglomera durante as tardes para disputar os pastéis da Patrícia, os lanches naturais da Zuleika, um caldinho de feijão, um “buraco-quente”, o acarajé da Luzia e, de saída, os doces do casal Maria Emília e Benê, servidos em copinhos plásticos com colherzinha de madeira.

Tudo isso maravilhosamente acompanhado por “Canário e seu Regional”, inabalável grupo de chorinho que sábado sim outro também desfila, no meio da praça, clássicos de Pixinguinha. Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e outros ícones do choro.

No clima festeiro que toma conta da praça todas as semanas, o que mais chama a atenção é a variedade, não só de mercadorias, mas de gente. O mérito é de toda a região, que sempre foi meio “do contra” e nadou contra a corrente, conseguindo manter hoje a cada dia mais difícil qualidade de colocar o homem em contato com seu meio a céu aberto.

Nas palavras da própria associação que cuida da feira: “a Praça Benedito Calixto tem sido um exemplar raro desta resistência ao confinamento, ao medo, e tem conseguido se manter como um espaço privilegiado para o congraçamento de muitos grupos diferentes que possuem um objetivo comum: o do lazer saudável, o da busca das atividades sociais e culturais que lá ocorrem. É, ainda, um reflexo do que existe de belo nesta cidade de tantas questões e cores”.

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

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-23.558226, -46.680617

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Conforme o clima e a claridade, as barracas são desmontadas mais cedo ou um pouco mais tarde