Por Pedro Schiavon

Meu caro amigo, me perdoe, por favor, se eu não lhe faço uma visita. Porém é você quem vive prometendo aparecer por aqui e nunca aparece. Mas como agora temos internet, mando notícias nesse site…

O peixe segue dando show de futebol (ou nem tanto…) e por aqui tem muito samba, muito choro e muita MPB. Mas o que eu quero é lhe dizer que essa sonzêra toda acontece em um barzinho muito especial, que já foi numa daquelas ruazinhas atrás do Cemitério São Paulo e que agora é na sua querida Inácio. Você precisa conhecer a nova casa que é mais espaçosa e, não por acaso, continua se chamando Roda Viva.

O Roda Viva é uma invenção da Tatyana Gomes, publicitária que é simplesmente apaixonada por Chico Buarque. Ela transformou a simpática casa em uma ode ao seu ídolo, com inúmeras capas de LPs enfeitando as paredes. Tem obras também de Caetano, Tom e bons discos de Noel, mas noventa por cento é de imagens do Sr. Francisco.

Mas, como a Tatyana vive em Salvador, quem segura a barra por aqui é o simpático Gugu, gerente da casa, que se vira para garantir o abastecimento, a limpeza, a qualidade musical, o trabalho dos garçons e mesmo com todo esquema e todo problema vai levando a chama para que o bar não perca suas características tão acolhedoras.

A primeira coisa bacana é que o lugar não tem absolutamente nada de sofisticado ou arrumadinho, como virou mania na outrora tão desencanada região. Pelo contrário, é pequeno, pouco iluminado, com cadeiras e mesas bem simples em madeira, o que deixa a sensação de não estarmos exatamente em um bar, mas numa casa de amigos.

Meu caro amigo eu não pretendo provocar nem atiçar suas saudades. Mas acontece que este bar me lembra muito outros dois que nunca sairão de nossas memórias: o Vou Vivendo – pela qualidade musical – e o Torto, em Santos – também pelo som e pelo clima de festa imodesta como aquelas, que aos poucos vai tomando conta do ambiente.

A Rita, a Rosa, a Angélica, a Bárbara, a Beatriz, a Lia, a Terezinha, a Yolanda e até a Geni estão todas lá, muitas delas como nomes de porções simples, como as de pasteizinhos (Iracema), as de bolinhos de carne seca (Joana Francesa) e outras, no enxuto pero competente cardápio da casa.

Mas também estão lá a Ana de Amsterdam e as mulheres de Atenas, a moça do sonho e a dançarina, a morena de Angola e a dos olhos d’água. Elas são a metade de um público jovem, bonito, culto e descolado, naturalmente selecionado pela excelente programação musical, que atrai exatamente meninos e meninas assim, que se interessam pouco pela aparência do ambiente e muito pelo som que rola dentro dele.

A programação inclui o Roberto Biela (pois é, ele mesmo, do Torto), o Mário Mammana, o Paulinho Grassmano Sílvio, o Rogério Silva, a Elaine Morie e o Ronaldo Giraldon, entre outros caras bons de música. Muitos deles eu (ainda) não conheço, mas pelo repertório dá para ter uma ótima impressão, pois, como sabemos, mesmo que os cantores sejam falsos (e não são), serão bonitas, não importa, são bonitas as canções.

Todos esses dias tem MPB clássica, das antigas e boas, sem abrir excessões, e às vezes – ah… às vezes… – é noite só de Chico Buarque, com o Rogério Silva e o Biela. Os dois fazem um som daqueles de cantar junto, de levantar e sair dançando com a ofegante epidemia que toma conta da casa. Eu só tô lhe contando que é pra lhe dar água na boca.

No meio disso tudo, se você quiser se sentar é preciso fazer reserva e chegar cedo, pois realmente lota sempre. E depois que enche é pirueta para chamar os poucos e ligeiros garçons, que se viram bem a abastecem o público de cerveja em garrafa, que a gente vai tomando de teimoso, de pirraça e para molhar a garganta porque a cantoria fica cada vez mais animada.

Pois é, amigo. Me perdoa se eu insisto à toa, mas a vida é boa para quem cantar e, como eu já disse, você, que quase nem gosta do Chico, precisa conhecer esse lugar(zinho). Então, vê se não dorme no ponto, reúne as economias e as traga em dinheiro ou cheque, pois eles não trabalham com cartões – o que também ninguém se importa, porque, além de tudo, não é caro.

E enfim, é isso. A Kaká e o Chicão mandam um beijo para os seus. Um beijo também da Gabi, da Cecília e das crianças. Os velhos amigos aproveitam pra também mandar lembranças. A todo o pessoal, adeus!

 

Pedro Schiavon é editor do Lugarzinho

 

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