Por Karina Del Monte Schiavon

Bem-vindo ao maior dos percursos da Rota Franciscana Frei Galvão. Com 222 km a serem percorridos a pé ou de bike e mais 51 km para serem apreciados da janela do trem, o trajeto que passa por 12 cidades traz paz, fé, cultura, alegria, conhecimento, esperança, equilíbrio e, acima de tudo, sabedoria.

Desta vez o caminho começa em Guaratinguetá, cidade que despontou em 1630 nas encostas da Mantiqueira e se desenvolveu a partir dos engenhos e fazendas de laticínios e café.

Hoje, a cidade natal do Frei Galvão é uma das economias mais fortes da região, e passou a se destacar também por fazer parte do Circuito da Fé, que engloba ainda Aparecida e Cachoeira Paulista. Aproveite para conhecer seminários e capelas do século XVII, e, claro, a Catedral de Santo Antonio, ponto final das quatro primeiras etapas e de partida deste último trecho da Rota Franciscana.

Aproveite também para se divertir no Ê Piano Bar (Rua Francisco Santos Reis, 741. Tel (12) 3125-9331) e para almoçar na Luciana Slow Food (Rua Visconde de Guaratinguetá, 259. Tel (12) 3132-2517) antes de partir. A próxima etapa é pertinho, mas exige tempo.

1º Trecho

São 6 km em linha reta e plana até Aparecida. Para quem já fez as outras rotas ou ainda fará o restante dessa, parece piada. Aproveite! É ali que você encontrará toda a concentração dos romeiros que verá em toda a rota, pois quase todos estarão a caminho do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, que é o segundo maior templo católico do mundo, perdendo em tamanho apenas para a Basílica de São Pedro, no Vaticano. Mas não deixe de conhecer a Igreja da Matriz, hoje chamada Basílica Velha, que foi toda construída em estilo barroco e inaugurada em 1745.

2º Trecho

Com as graças da padroeira sobre seu caminho, siga sua rota por 12 km até Roseira, onde uma boa pedida é conhecer a fazenda Boa Vista, que ainda conta com suas antigas senzalas abertas para visitação. Descanse e coma algo pela estrada mesmo, porque os trechos estão aumentando e o próximo, até Pindamonhangaba, tem quase 19 km.

3º Trecho

A “princesa do vale” convida a um passeio pela história, que passa pela Central do Brasil, a Igreja de São José e o Palacete Tiradentes, todo feito em taipa de pilão e pau a pique em 1862, para depois descansar no Bosque da Princesa, gostoso parque às margens do Paraíba, também construído no século XIX.

A cidade é boa de prato, valendo muito a pena atacar delícias regionais como o “Afogado”, o “arroz com suã”, a “paçoca de carne-seca”, o “bagre com pirão” ou a “quirera com costela de porco”. Se quiser pegar mais leve sem perder a regionalidade, curta as caipirinhas com caldinhos e bolinhos caipiras do Bar da Rita (Rua São Domingos Sávio, 270. Tel (12) 3643-1425).

4º Trecho

“Comido e descansado”, siga para Tremembé, cidade a 12 km dali, onde um merecido descanso pode te esperar na Fazenda Maristela (Rodovia SP-123, km 17. Tel (12) 3672-4104), um antigo mosteiro que virou pousada, mas preserva a capela e todo o estilo do período colonial. Aí, quando tiver disposição, estique mais 8 Km e já estará em Taubaté.

5º Trecho

Taubaté é a segunda maior cidade do Vale do Paraíba e não para de crescer. A presença de uma grande universidade – a Unitau – faz com que a cidade tenha um agito diferente das demais, proporcionando barzinhos surpreendentes, inclusive com ótima música ao vivo, como o Porca Miséria (Rua Joaquim Távora 80. Tel (12) 3432-1233/1244) ou o Jardim Cultural, sobre o qual já falamos aqui no Lugarzinho.

Para não ficar só na “modernidade” e curtir também um pouco da tradição local, dê uma passadinha no Museu Mazzaropi, onde o cineasta construiu seu estúdio de cinema, e na Casa do Figureiro para conhecer as peças de barro esculpidas a mão, sempre alegres e muito coloridas. Aproveite ainda para descansar o quanto puder, porque a sequência é braba!

6º Trecho

Entre Taubaté e Redenção da Serra está o trecho mais longo da Rota Sabedoria. São 48 km de uma longa e bonita estrada até chegar à minúscula cidade, se acomodar no Quiosque do Roberto (Rua 10 de fevereiro, S/N. Tel (12) 9795-1500) e tomar uma cerveja gelada enquanto descansa e curte a represa da CESP, paisagem ideal para quem curte a prática de esportes náuticos.

A cidade recebeu esse nome por ter sido a primeira do estado a alforriar seus escravos, o que já conta muito a seu favor. Para comer por ali você terá que procurar um pouco, mas não vai se arrepender. Sabe aquela comidinha bem caseira encontrada nos lugares mais improváveis? É assim. Basta ver o que o Paulo Pereira conta em seu livro sobre a cidade: “João Lotério fazia o melhor pastel; dona Zezé Cursino, o melhor sequilho que derretia na boca prolongando o sabor por mais tempo; o melhor bolo moreno era do João Guatambu. E comparável ao pão-de-ló, só mesmo os bolinhos de milho da Nhá Ditinha Pereira”.

7º Trecho

O trecho de Redenção até Paraibuna é um pouquinho mais curto, e sempre ladeado pelas águas da represa, consideradas as mais saudáveis de todo o estado. Neste trecho tem vários locais adequados para um banho, mas é sempre bom lembrar que as águas podem ser traiçoeiras e, portanto, é preciso cautela.

Depois de se arriscar nos esportes náuticos que dominam a região, saboreie a fartura da comida local no Caetê Cozinha & Cia (Estrada dos Tamoios, km 35. Tel (12) 3974-7105) ou na Fazenda da Comadre (Estrada dos Tamoios, km 43 (12) 3974-0510).

8º Trecho

Mais uma grande caminhada ou pedalada, agora Rio Paraíba acima, de 37 km até Santa Branca, cidade curiosa, com predomínio industrial, mas com indústrias não poluentes, o que faz com que o rio ali permaneça incrivelmente verde. A cidade tem ganhado força no turismo rural, com a produção de cachaças, vinhos, licores e doces caseiros.

Vale a pena, sem dúvida alguma, andar uns quilômetros a mais até a Toca do Leitão, delicioso bar e restaurante sobre o Paraíba. Gastar um pouco de tempo diante de um visual sereno será revigorante para os quase 20 quilômetros a seguir.

9º Trecho

A próxima “estação” é Guararema, nas proximidades do Vale do Paraíba e do Alto Tietê, e a apenas 81 km de São Paulo. Sua história teve início na primeira década de 1600, quando o colonizador português Gaspar Vaz Guedes fundou a Aldeia da Escada, levando para lá os índios já catequizados. Em 1625, a aldeia foi entregue aos jesuítas que então construíram a primeira capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Os jesuítas foram expulsos 15 anos depois por defenderem os índios, tendo, assim, comprado briga com os colonos e o próprio Gaspar Vaz, todos favoráveis à escravização.

Aliás, foi por causa do culto do povo indígena aos seus mortos que quase 100 anos depois, a nova capela, construída por padres franciscanos, recebeu o nome de Nossa Senhora da Escada. Do lado de dentro, ela guarda surpresas como o único altar no Brasil com a imagem de São Longuinho.

Guararema é conhecida também como a Cidade das Orquídeas, com imensa produção de variadas espécies, como pode ser conferido na Orquidácea (Estrada Heitor Pereira de Souza, 4415).

E antes de pegar esse último trecho desmotorizado, não deixe de provar o bolinho de milho com calabresa, o bolo de fubá e os bolinhos de chuva do Roça Chic (Rua Cel. Ramalho, 54. Tel (11) 7187-6441).

10º Trecho

Vila de Sant’Ana de Mogi Mirim foi o nome dado ao povoado nascido do primeiro caminho entre São Paulo e Mogi das Cruzes, aberto pelo já conhecido Gaspar Vaz Guedes.

Com o passar dos anos, o mais importante município do Cinturão Verde da região metropolitana do Estado viu crescer a população de origem nipônica.

Em Mogi das Cruzes, você pode passear pelo Parque Centenário da Imigração Japonesa e, quem sabe, se animar para conhecer o gigantesco Paradise Golf Club. Ou arriscar uma planada de asa-delta lá no Pico do Urubu. Há atrações na Serra do Itapeti, também, como a visita à Cruz do Século ou ao Parque Natural Municipal da Serra do Itapeti, importante viveiro de espécies da Mata Atlântica. E se você não esperava ter tanta coisa para conhecer por lá, ainda tem a Estação de Sabaúna; é nela que você tomará o trem até a Estação da Luz, marcando a sua chegada a São Paulo.

11º Trecho

De Mogi das Cruzes até São Paulo serão percorridos quase 51 quilômetros de estrada de ferro, o que levará 1 hora e meia. Viajar de trem é sempre interessante: a velocidade é suficiente para se observar quase tudo do lado de fora: casas, vegetação, pessoas, carros, animais; aproveite para ver as semelhanças e, porque não, as diferenças também, entre o que há no “seu mundo” e o mundo que chegou até você nas etapas da Rota Franciscana Frei Galvão.

O ponto de chegada é a magnífica Estação da Luz, construída no final do século XIX e que durante muitas décadas serviu de sala de visitas para políticos, empresários e reis, além de principal porta de entrada de imigrantes na capital.

Depois de tantos quilômetros percorridos, talvez você precise de umas pílulas: as pílulas de fé podem ser retiradas Mosteiro da Luz por aqueles que confiarem na intercessão de São Frei Galvão. Afinal, pedalar ou andar por 222 km é uma fantástica prova para quem acredita, não é?

Karina Del Monte Schiavon é editora do Lugarzinho

 

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