PEDRA DO BAÚ (São Bento do Sapucaí/SP)
A Pedra do Baú faz parte da minha vida, embora eu nunca a tenha escalado de fato. Uma simples foto dela me transporta ao passado, lembrando a estrada de terra que subia em espiral, recortando a paisagem da Mantiqueira como se desenhasse uma promessa. A cada curva, o cheiro de mato fresco, o rangido da bicicleta, a respiração curta — e meu amigo Marcos lá na frente, pedalando como se tivesse o vento a seu favor. Campos do Jordão era meu reino de férias. E a liberdade era medida em quilômetros percorridos por trilhas, ruas e ladeiras que hoje duvido que minhas pernas aguentariam.
Eu passei muitas férias lá, algumas hospedado na casa dele. Acordávamos cedo (para quem está de férias, claro), tomávamos qualquer coisa com pão e saíamos sem roteiro. Bicicletas e sonhos eram nossos meios de transporte. Tínhamos uns 14, talvez 15 anos. Ele, já na época, falava com reverência da Pedra do Baú — aquela parede de pedra que parecia ter sido empurrada ali por gigantes. “A gente ainda vai subir isso aí”, ele dizia. Eu sorria, concordava, mas por dentro…

O gigante de pedra
A Pedra do Baú, com seus imponentes 1.950 metros de altitude, não era só um ponto turístico — era um desafio, um troféu de coragem para quem ousava. Formando um trio inseparável com o Bauzinho e a Ana Chata, aquele maciço rochoso ficava entre Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí. O acesso era por estradas de terra e poeira, onde nossas bicicletas já tinham passado — mas nunca até o fim.
Décadas depois, descubro que o lugar virou Monumento Natural Estadual, com trilhas estruturadas, mirantes, via ferrata com mais de 300 degraus cravados na rocha e até escalada com guias especializados. Na nossa época, não tinha nada disso. Tinha algumas ferratas. Tinha tempo. Tinha juventude e coragem — mas, no meu caso, não o bastante para subir a tal pedra.

Se você for, vá cedo. E vá com calma.
Hoje, ele ainda mora em Campos. Ainda pedala. Agora com uma bike cheia de marchas, capacete, roupas de lycra e, claro, aplicativos de GPS. E claro que já foi lá várias vezes. E eu, cá do meu escritório, vejo fotos e sinto aquele velho baque no peito. Não de arrependimento, mas de saudade de um tempo em que a vida era feita de subidas longas, trilhas inventadas e metas mais agradáveis de se atingir.

Para quem, como ele, decide finalmente enfrentar o gigante, hoje há trilhas bem demarcadas, agendamento com antecedência (pelo site da Prefeitura de São Bento do Sapucaí), equipamentos obrigatórios para a subida ao Baú (capacete, cadeirinha, mosquetões) e guias especializados que acompanham o trajeto. A trilha do Bauzinho é a mais leve — 10 minutinhos e você já está num mirante espetacular. A da Ana Chata, moderada, exige lanterna e coragem pra passar por túneis de pedra. Já a trilha para o topo do Baú, essa sim exige mais que preparo físico: exige vontade de se superar.
Há três acessos principais, todos com estacionamento (gratuito em alguns, pago em outros) e infraestrutura. O parque abre todos os dias, das 9h às 16h. Vale chegar cedo, levar água, lanche e espírito leve. Quem parte de Campos do Jordão chega pela estrada do Paiol Grande. Quem vai de São Bento, cruza uma bela estrada até o sopé da montanha. De um lado ou do outro, a vista é espetacular.

Ainda dê tempo
Outro dia pensei em voltar. E para escalar — quem sabe? —, ou pelo menos pra andar de novo pelas trilhas, tocar a pedra com a palma da mão. Levar meu filho, minha esposa, talvez até ele, meu amigo de infância, sua família. Mas sem disparar na frente, para ver se sobrevivo até o fim.
A Pedra do Baú continua lá, impassível, gigantesca. Mas talvez eu tenha mudado. Talvez agora, com mais idade e menos urgência, eu suba com menos medo — e com mais história pra contar.







Marcos
É meu amigo, o tempo passa rápido, mas o Baú te espera… o Bauzinho tem acesso facil, a Ana Chata uma trilha mais longa pela mata e hoje pra subir o Baú é necessário um guia com equipamentos de segurança… mas a vista compensa… E pra quem quer entender melhor a região segue uma dica , assistam o filme Caminhos da Mantiqueira https://youtu.be/o29VxS91sTo?si=P6clDNBWN3hd9dSq