ARTE PARA QUÊ? Ep. 07 – LUCAS CORAZZA
Há chefs que cozinham para alimentar. Outros, para impressionar. E há aqueles que parecem usar os ingredientes como tinta, memória e linguagem. Lucas Corazza pertence a essa terceira categoria. Entre chocolates, meles, baunilhas e camadas perfeitas de bolo, ele construiu uma trajetória em que a confeitaria deixa de ser apenas técnica e passa a ocupar um espaço muito mais amplo: o da arte, da cultura e da emoção.
No sétimo episódio da série Arte Para Quê?, do Lugarzinho, cuja entrevista você confere AQUI ou no final dessa matéria – Lucas surge como nos acostumamos a vê-lo: inquieto, divertido, provocador e profundamente apaixonado pelas histórias que a comida pode contar. Conhecido do grande público como jurado do programa Que Seja Doce, do canal GNT, ele vai muito além da televisão ao refletir sobre o que um doce comunica sem precisar dizer uma única palavra.

Nossa conversa passeia por memórias afetivas, referências visuais, ingredientes brasileiros e até – ou principalmente – movimentos artísticos. Lucas aproxima a confeitaria da Pop Art — não apenas pela explosão de cores e formas, mas pela maneira como a comida ocupa o imaginário popular. Afinal, poucas coisas são tão universais quanto um brigadeiro, um bolo ou o cheiro de chocolate atravessando uma cozinha.
Para ele, doces carregam símbolos culturais tão fortes quanto músicas, pinturas ou filmes. Receitas atravessam gerações, sobrevivem ao tempo e funcionam como arquivos afetivos. Um sabor pode despertar lembranças esquecidas, transportar alguém para a infância ou reconstruir a presença de pessoas queridas. Não por acaso, Corazza defende que confeitaria também é narrativa — uma forma de expressão capaz de comunicar identidade, território e emoção.

E talvez seja justamente essa busca constante que explique sua defesa apaixonada dos ingredientes naturais e regionais. Durante nossa conversa, ele fala com entusiasmo sobre o cacau brasileiro, a complexidade aromática da baunilha e as inúmeras possibilidades do mel. Mais do que ingredientes sofisticados, eles representam biodiversidade, cultura local e respeito ao produtor.
Fala também de frutos pouco conhecidos e sabores estranhos, que magicamente ganham novas funções, acompanhamentos e sabores, “desde que as conheçamos mais profundamente”. Em um mundo dominado por fórmulas artificiais e sabores padronizados, o chef defende uma confeitaria que preserve origem, história e personalidade.

E a entrevista também encontra espaço para muitos toques pessoais. Ao comentar a relação emocional das pessoas com os doces, Lucas faz uma observação simples que dá nome a um dos capítulos de seu livro: “doce não é remédio, mas vovó diria que cura”. Há algo profundamente acolhedor em tomar aquela xícara de leite quente com açúcar queimado. E talvez esteja aí uma das grandes forças da confeitaria: sua capacidade de criar pequenos instantes de felicidade e conforto.
Entre risadas, referências artísticas e reflexões inesperadas, o episódio revela um Lucas Corazza que enxerga a cozinha como espaço de criação, afeto e memória. Um confeiteiro que fala de açúcar como quem fala de cultura. E que prova, camada após camada, que alguns doces podem ser tão expressivos quanto uma peça selecionada pelo curador de uma galeria.
EM BREVE: Rua Marquês de Itu, 798 – Higienópolis – São Paulo/SP







Esperanza4288
Lucas sempre incrível. Talento e carinho sempre juntos e com um imenso amor por tudo que faz. Uma delícia de entrevista. parabéns!